terça-feira, 12 de outubro de 2021

SELEÇÃO DE CONTOS DO PROJETO DE INCLUSÃO LITERÁRIA ABXZ CAMINHO DAS PEDRAS: FOMENTO À LEITURA E À CRIAÇÃO LITERÁRIA VAI ATÉ DIA 15 DE OUTUBRO


 

A Editora Via Litterarum e a Academia de Letras de Ilhéus continuam até o próximo dia 15 de outubro as inscrições para o Projeto de inclusão literária abxz Caminho das Pedras: Fomento à Leitura e à Criação Literária, direcionado a novos autores, mas não exclusivamente, da região centrada em Ilhéus, especificamente os municípios que conformam a bacia hidrográfica do Rio Almada, a saber Ilhéus, Uruçuca, Itajuípe, Coaraci, Almadina e Barro Preto. A seleção contemplará o gênero literário conto.

 

Cada autor poderá encaminhar um conto com no máximo, 8.000 caracteres e no mínimo 1500 caracteres, incluindo os espaços. A obra deve ser escrita em Word, fonte Times New Roman, tamanho 12, estilo normal, na cor preta, parágrafo de alinhamento justificado, espaçamento 1,5 entre as linhas. A obra deverá conter apenas texto, sem ilustrações, gráficos ou quaisquer tipos de imagens, rodapés ou numeração de páginas. Inscrições fora desses parâmetros serão desclassificadas. O trabalho deve ser, obrigatoriamente, inédito e escrito em Língua Portuguesa. O(A) candidato(a) não poderá ter menos de 14 anos. 

 

Serão selecionados 30 (trinta) contos. O produto final será a publicação de uma coletânea reunindo os contos selecionados, que serão editados com selo editorial abxz pela Editora Via Litterarum. A publicação não será comercializada. Cada autor receberá cota de 5 (cinco) exemplares a título de Direito Autoral, podendo adquirir, todavia, exemplares adicionais por preço definido entre as entidades promotoras.

 

As inscrições podem ser feitas pelos sites da Editora Via Litterarum e da Academia de Letras de Ilhéus.

sábado, 9 de outubro de 2021

ARTIGO

 


ELVIRA SCHAUN FOEPPEL

(1923-1998)


O Legado de Elvira Foeppel

 Cyro de Mattos 

 

Como Maura Lopes Cançado, autora de  O hospício é Deus (1965), diário, e O sofredor do ver (1968), contos, Elvira Foeppel deixou um legado literário pequeno, mas expressivo. Com Chão e poesia, pequeno volume com registros circunstanciais e anotações existenciais, fez a sua estreia em 1956, quando usa o diário como forma para exprimir a sua visão pessoal sobre o mundo. Nesses textos breves, já demonstra ser uma escritora preocupada com o indivíduo na condição do existir. Comparece ao chão de memórias curtas com pontos de vista pessoais, fazendo delas articulações agudas que ocupam espaços no sentido incomum de ambiguidades e ferimentos, entre a introversão e a denúncia de si mesma feita por um espírito inquieto, participante de uma força nova em nossa literatura. 

Com Círculo do medo, contos, 1960, essa escritora baiana nascida em  Ilhéus é saudada pela crítica como autora de textos inovadores no corpo da prosa de ficção breve desenvolvida entre nós. Elvira Foeppel introduz no conto elementos de vanguarda na estrutura e linguagem. O episódio, a trama, o ambiente, elementos presentes  numa prosa ficcional que se delineia objetiva, dependente de uma geografia humana exterior, em níveis horizontais no discurso, são abandonados para a construção de uma narrativa comprometida com a linguagem motivadora de mergulhos no fluxo da vida,  da atmosfera e do relevo dos personagens , que se aglutinam em torno de profunda percepção existencial, em cujo conteúdo o indivíduo emerge através dos conflitos universais, perpassados de angústia, náusea, solidão, amor, ódio e medo. 

Em Chão e poesia, a maneira de registrar a vida relaciona-se no campo expressivo próprio do eu inquietante, que comporta nos interiores pensamentos, divagações e pequenas percepções do mundo. Circulo do medo é o mundo ficcionalizado que se converte naquele  espaço interior em que entram sentimentos atordoantes, sugestões que assaltam à mente carregadas de estranha beleza, além de exibir uma linguagem como instrumento de mergulho existencial destinado à criação de uma atmosfera,  que quase sempre sufoca em sua morbidez. Observa-se que esse pequeno volume de contos é um repositório de peças de ficção sem didatismo do narrador onisciente, devaneios inúteis, informações do cotidiano ou lembranças sequenciadas no tempo sem verticalidades.  O que sobressai é o compromisso da autora em encarar a criação literária sem submissão à razão lógica. Inexiste assim o caso narrado através dos momentos de princípio, meio e fim, o tema que se impõe como resultado da recriação do real assentado na memória, no telurismo social ou nostálgico, no documento que revela a condição humana ligada ao urbano com os seus dramas diários adstritos à realidade circundante. 

Os desajustes, abandonos, desencontros e momentos críticos das criaturas inventadas por Elvira Foeppel situam-se no plano da poetização de um clima, armado por quem sabe revestir a vida em torno de uma aura estética ligada à própria existência humana. O estar no mundo desses personagens com sentimentos em conflito valoriza-se no que tem de mais profundo pela sensibilidade da ficcionista e em sua pesquisa da forma discursiva. Esta não se faz no que pretende sugerir com qualquer concessão ao leitor mediano. Podem ser destacados em Circulo do medo os contos “O fio metálico do ódio”, “O aleijado” e “Afinal lá estava ela” como exemplos de mais autêntico mergulho nos interiores obscuros da criatura humana. 

Muro frio, romance publicado em 1962, tem lugar assegurado em nossa novelística de renovação esteticista, numa época em que a literatura brasileira converge para procedimentos de vanguarda. Quando então romancistas, contistas e poetas procuram executar a arte literária no plano da linguagem e no significado incomum  da forma  pesquisada, assim como na ficcionalização da vida apurada pelos fios da sensibilidade, sugestões e pontuação psicológica, elementos que apresentam com a sua fisionomia bastante impregnada  de sentimentos obscuros  do mundo. É uma nova literatura que obriga o leitor a pensar a narrativa como um todo, destituída na sua  construção do dizer fácil, fluente e permeado de lugares comuns. Nesse particular, Elvira Foeppel insere-se em nosso contexto literário como transgressora de estrutura, numa hora em que a nossa ficção ainda não era plena de procedimentos proustianos, mansfieldianos, joycianos e faulknerianos. Justamente quando o nosso corpo literário passa a ser inovado e acrescido de qualidade estética por romancistas da grandeza de João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Adonias Filho e do contista Samuel Rawet.

Muro frio é um romance articulado com poesia, música e memória, centrado  em uma mulher que retorna à sua cidade para alcançar e ferir,  na  sua maneira de ser,  pessoas na rua. Exprime pensamentos que atritam com a existência, sinaliza a dor do nada, constata juízos e preconceitos que fazem emergir uma angústia consciente, na qual a vida não se justifica nem é motivada. Romance que, em sua narrativa subjetiva, formada de breves capítulos, estende na memória um passado que tritura a infância, sentimentos espontâneos e desejos verdadeiros. Apresenta momentos do presente que apertam o olhar agudo de Marta no que amplamente vê, nos rumores de tudo que não chega a compreender e que a desnuda através da agonia e insolência, conduzindo-a dessa forma por paisagens de subsolo que perturba, espaços ocultos e tortuosos, feitos de vertigem, verdades oblíquas e ferocidades perigosas. 

Romance que fantasia a natureza humana com dolorosos silêncios que oprimem, desvenda Marta, morta num sonho. Com o seu ritmo poético faz pulsar um corpo de mulher possuída de ruídos selvagens, enquadrada numa cidade velha e pequena, repetitiva e enfadonha. Lá, onde a vida qual muro frio levanta sinais e gritos que não alteram o ritmo do viver. O espetáculo nada generoso do tempo no relacionamento das pessoas nutre-se de uma atmosfera  com mentiras e excessos. 

O estilo sugestivo, que a autora usa para criar o clima tecido de sensações e percepções amargas, no qual se situa Marta, projeta um campo metafórico perturbador, que funciona no texto verbal, trabalhado em nível da forma, como momento singular da nossa emancipação literária no terreno da linguagem. E isso se dá   num corpo com mãos femininas que tão bem sabem inventar  a língua literária,  habilmente usá-la na estilização do drama e do cotidiano, como são exemplos disso Rachel de Queiroz, Clarice Lispector,  Helena Parente Cunha e Lígia Fagundes Telles. 

A arte literária de Elvira Foeppel chama a atenção também por ter a autora nascido no sul da Bahia e em nenhum momento eleger a civilização cacaueira com o seu modo singular de vida como tema do  universo ficcional, a exemplo do que ocorre com os escritores Jorge Amado, Adonias Filho e outros com um legado de expressão consistente.  Nem sequer funde o regional com o espiritual em busca de alcançar o universal, nem une poesia e humanismo social para retratar a vida geograficamente localizada, dependente da realidade exterior.  Sua literatura é de construção poemática,  por excelência, seu discurso  também conceitua, afirma sem hesitar  em seu  fundo existencial, faz com  o outro pense a vida em suas verticalidades, enigmas e abismos.  Passa longe de subjetivismos eleitos para insinuar geografias espirituais, solidões ou sensações frouxas de nosso ser-estar precário no mundo.

A obra de Elvira Foeppel vem sendo estudada recentemente por Vanilda Mazzoni, que, juntamente, com Alicia Duhá Lose, resgatou boa parte do legado disperso, publicado no período de vinte e dois anos, compreendido entre março de 1950 e 1972, em periódicos de divulgação e amenidades. Esse trabalho cuidadoso resultou no livro Da sombra à luz,seleção de contos, publicado em 2005, pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz. 

 Elvira Foeppel nasceu em Canavieiras, em 15 de agosto de 1923, mas com dois meses de idade a família transferiu-se para Ilhéus onde,  na cidade de belas praias, passou a infância, adolescência  e exerceu o magistério primário até transferir-se para o Rio de Janeiro. Foi colaboradora no Rio de Janeiro, com artigos e crônicas, das revistas “Leitura”, “Cadernos Brasileiros” e, com maior frequência, do “Suplemento Literário do Jornal do Brasil”, ao lado de José Edson Gomes, Judith Grossman, Reynaldo Jardim e Assis Brasil.  Seus contos participam  de antologias no Brasil. Deixou inédito  Íntimos da Morte, romance. Faleceu no Rio de Janeiro, em 28 de julho de 1998. 

 

Leituras Sugeridas 

FOEPPEL, Elvira. Chão e poesia, memórias curtas, Organização Simões Editora,  Rio de Janeiro, 1956. 

 ---------------------- Círculo do medo, contos, Editora Leitura, Rio de Janeiro, 1960.

  ----------------------Muro frio, romance, Editora Leitura, Rio de Janeiro, 1961.

------------------------ Da sombra à luz, contos, seleção de  Vanilda Salignac Mazzoni e Alícia Duhá Lose, Editus, editora da UESC, Ilhéus, Bahia,  2004.

MAZZONI, Vanilda. A violeta grapiúna, ensaio, Editus, Editora da UESC, Ilhéus, 2003.


*Foto extraída do Centro de Memória de Ilhéus. Quer saber mais sobre Elvira Shaun Foeppel, clique aqui.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O GIGANTE E A BICICLETA, DE FERNANDO LEITE MENDES, SERÁ LANÇADO PELA ALI DIA 14




O livro O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas, de Fernando Leite Mendes, coletânea organizada por Cyro de Mattos e Ivo Korytowski para resgatar a memória e o valor do esquecido cronista ilheense será lançado pela Academia de Letras de Ilhéus, online, no dia 14 de outubro, às 19 horas. 

O lançamento remoto contará com a participação de Pawlo Cidade (mediador), Cyro de Mattos, Ivo Koritowski, Jane Hilda Badaró e Wilson Leite Mendes, o filho do cronista.

O livro traz capa da desenhista Jane Hilda Badaró e tem o selo editorial da Via Litterarum, do editor Agenor Gasparetto. Para o escritor e poeta Cyro de Mattos, Fernando Leite Mendes, que nos deixou aos 48 anos, nada deve aos cronistas melhores de sua época, década de 50 no Rio de Janeiro, como Carlinhos Oliveira, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Drummond, Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz e outros astros da crônica brasileira. 

A antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas é acrescida de prefácio, depoimentos e pesquisa iconográfica realizada pelos organizadores. Cyro de Mattos é autor de vasta obra, de vários gêneros, membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, também editado no exterior, além de detentor de prêmios importantes. Publica quinzenalmente uma crônica na revista virtual da crônica RUBEM, de Curitiba. 

Ivo Korytowski é jornalista, tradutor e romancista premiado pela União Brasileira de Escritores (Rio). Reside em São Paulo. É o editor dos conceituados blogs Literatura & Rio de Janeiro & São Paulo e Sopa no Mel. Para selecionar as crônicas que compõem esse livro póstumo, seus organizadores fizeram ampla pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

ARTIGO

 Andanças do príncipe em Ilhéus (2)

            Cyro de Mattos 

 

Afirma a competente pesquisadora Moema Augel, em sua introdução de Mato Virgem, que espelho e inspirador do príncipe Maximiliano foi, sem dúvida, o cientista Alexander von Humboldt, o versátil explorador. Com suas descrições, linguagem cuidada, viriam suas divulgações provocar impacto na imaginação do público europeu. Cheio de entusiasmo, o príncipe austríaco Maximiliano contagiou-se com a grandeza da natureza tropical. Como Humboldt empenhou-se em legar uma obra científico-literário, vinculando   conformações naturalísticas e objetivas descrições científicas, de cunho documental, às efusivas impressões pessoais face à luxuriante vegetação brasileira.  Apesar dos ingredientes românticos em Mato virgem, cheios de encantamento e surpresas diante da natureza bravia, inóspita e indomada, o autor não se mostra isento de sua concepção ideológica europeia, etnocêntrica, quando faz observações sobre outras gentes nesse Mundo Novo. 

Descreve as iguarias da alimentação na primeira refeição com peixes e farinha, bem temperados com os condimentos nativos. Menciona o estranho uso da “cachaça de Lisboa”, para ele nociva ao calor do corpo. Refere-se às improvisadas plantações de cacau e às precárias casas dos colonos, seus filhos pálidos, desprovidos das origens, falando um hesitante português. Mostra em suas observações que Ilhéus não aparentava qualquer prosperidade, ali existia apenas uma igreja e um sacerdote. Davam a entender à população que as duas coisas eram apenas sintomas de uma convenção social e não uma necessidade de devoção e fé. 

Com avaliação superficial e apressada, informa que os brancos  já haviam chegado àquelas bandas com suas práticas religiosas europeias  enquanto os negros  acreditavam que os seus senhores representavam  o bem e o mal. Ébrio diante da majestosa natureza, chega ao ponto de comentar que o Rancho do Príncipe, habitação rudimentar,   que privilegiava na sua visita a Ilhéus, erguida como pouso na incursão pela floresta, era preferível a muitos palácios rutilantes em que me hospedei nas minhas andanças europeias.  

O eco da visão eurocêntrica do príncipe e a sua inserção no contexto histórico e social, da sua época e do seu lugar, correspondem aos sentimentos e impressões  usadas quando ele se refere aos nativos como  puro-sangue ou às bocarras das negras que encontrou  por onde andou  ou aos horríveismulatos. Essa visão eurocêntrica e deformadora, que rejeita o estético com feição natural nos traços típicos que cada raça possui em si mesma, principalmente aquelas consideradas inferiores pelo elemento branco, não o impede de deixar escapar seu inconformismo com a vida escrava levada pelos negros. 

Na página 155 do livro lê-se:

 

            Não é possível imaginar-se um viver mais triste do que a existência dos negros que levam uma vida de condenados das galeras. Duas coisas, nessa lamentável história, são e continuam a ser tremendas. Uma, é o princípio segundo o qual a ira e o castigo do proprietário onipotente só são diminuídos pela preocupação em não prejudicar o valor da carne; e depois, o pensamento de que seres com alma, como esses, mesmo que sejam os mais talentosos possíveis, e não importando quantas qualidades possuam, não conseguirão chegar jamais a algo mais elevado, a não ser que o humor de seu senhor lhes permita. 

 

        A sensação de completa liberdade, de paz interior, do encontro feliz decorrente das situações que o compraziam em sua visita ao mato virgem,  tudo isso fez com que o príncipe austríaco  derrame  na escrita saborosa    suas visões de encanto e  admiração   diante do que os olhos viam, muitas vezes sem acreditar. Leia-se esse trecho:

 

       Para completar a harmonia, o céu, sem nuvens no cair da tarde, fornecia a perfeita tonalidade de fundo contra a qual os monumentais contornos se desenhavam com a maior nitidez. Olhando-se para essas barreiras da floresta, pasma-se, maravilhado com a grandiosidade da natureza, com o vigor desse solo que faz crescer essa massa impenetrável; está-se ali como diante da colorida cortina de um mundo de sortilégios que, por um enigma não decifrado, permanece envolto num encantamento que não se quebrou. A pessoa vislumbra vagamente tudo o que se deve passar naquele interior, onde todo um universo, naqueles verdes espaços sem fim, pulsa e palpita; sabe-se que as plantas germinam, florescem, dão frutos nesses amplos vestíbulos; seres de plumagem colorida de inúmeras espécies esvoaçam, cantando, por aquela imponente catedral; que imensas borboletas   em cores flamejantes voluteiam em torno de inebriante perfume das flores. Sábias lagartixas e serpentes de metálico brilho arrastam-se pelas ervas e moitas; sabe-se que tudo, desde o sexto dia da criação, ali vive e se agita, canta e exala seus aromas, e mesmo assim é, e permanece, um enigma, a despertar espanto e admiração, inexplicável, porém, para o indivíduo. (p. 126)       

 

Mesclado com laivos barrocos, o estilo romântico do arquiduque Ferdinand von Habsburg, que também foi poeta e produziu centenas de poemas, mostra que seu relato em Mato virgem é rico em pormenores, fornecendo um documento inestimável para os estudiosos do assunto. 

                                                                                         

 

Referência

 

HABSBURGFerdinand Maximilian von. Mato virgem, diário de viagem, tradução de Moema Augel, Editus (UESC), Ilhéus, Bahia, 2010.

    

*Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. Publicado em Portugal, italiano, francês, alemão, espanhol, dinamarquês, russo e inglês. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Da Academia de Letras de Ilhéus.

    

 

           

 

 

 

 

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

DEPUTADO CACÁ LEÃO IRÁ DESTINAR EMENDA PARLAMENTAR PARA A ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS REALIZAR A FESTA LITERÁRIA DE ILHÉUS EM 2022




Para a realização da 5ª. Festa Literária de Ilhéus, prevista para julho de 2022, pela Academia de Letras de Ilhéus, o deputado federal Cacá Leão, irá destinar uma emenda parlamentar no valor de R$150 mil.

A informação se deu através de ofício enviado pelo gabinete do Deputado Cacá Leão em resposta a solicitação feita pelo presidente da Academia de Letras de Ilhéus, Pawlo Cidade com o apoio do confrade, Jabes Ribeiro.

No documento, Pawlo Cidade pede a destinação de emenda parlamentar para a realização da 5ª. Flios, que acontecerá no próximo ano, pela Academia de Letras de Ilhéus.

O presidente acrescenta que “a instituição sexagenária foi fundada por intelectuais e idealistas como Jorge Amado, Adonias Filho, Otávio Moura, Carlos Monteiro, Leones da Fonseca, Milton Santos, dentre outros cultores das Artes e das Letras, vem realizando esta Festa Literária nos últimos quatro anos com o objetivo de colocar a cidade de Ilhéus na rota dos grandes eventos literários da Bahia e no calendário turístico do Município.”

“Reconhecendo a importância da Academia de Letras de Ilhéus em incentivar e promover a cultura literária do Município e da região, é com satisfação que informo que indicarei emenda parlamentar, referente ao Orçamento de 2022, no valor solicitado pela Academia, para a realização da 5ª Festa Literária da cidade,” afirma o deputado no ofício nº 034/2021.

“Nossa principal bandeira é o estímulo à leitura e a literatura. Graças a sensibilidade do deputado a realização da Flios em 2022 estará garantida”, comemora o acadêmico Pawlo Cidade, acrescendo que a 4ª Flios será em novembro de 2021.

ARTIGO

         

MATO VIRGEM – Em tradução de Moema Parente Augel | Ilhéus... com amor!



ILHÉUS E O PRÍNCIPE AUSTRÍACO

Cyro de Mattos 



Desconhecido no Brasil, na íntegra, o volume Mato virgem (2010), de Ferdinand Maximiliano von Habsburg, príncipe austríaco, passa a ter agora uma edição primorosa em português através da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz. A tradução do livro, introdução e notas são da Professora Doutora Moema Augel, baiana nascida em Ilhéus e há anos radicada na Alemanha onde leciona Português e Cultura Brasileira na Universidade de Bielefeld. No trabalho da tradução da obra, ela contou com a substancial ajuda do marido alemão, Professor Doutor Joahannes Augel.

A erudita tradutora fez peregrinações e pesquisas constantes em castelos, bibliotecas alemãs e austríacas, durante anos, para se aparelhar de instrumental necessário que lhe permitisse uma tradução eficiente da obra na qual o príncipe austríaco relata suas impressões da Mata Atlântica, que circundava em 1860 a cidade de Ilhéus, então remanescente da capitania hereditária do Brasil colonial.

As intervenções de Consuelo Pondé, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, dos professores Soane Nazaré de Andrade e Joaquim Bastos, reitor da UESC, foram fundamentais para a publicação da obra, que compreende quatro partes, cada uma correspondendo ao dia que o arquiduque austríaco passou em Ilhéus, naqueles idos que vão longe. Assinalando cada dia, vê-se a localização e a data dos acontecimentos narrados: São Jorge dos Ilhéus, 15 de janeiro de 1860; fazenda Vitória, 16 de janeiro de 1860; no mato virgem, 17 de janeiro de 1860; na colônia alemã em Cachoeira, 19 de janeiro de 1860. O arquiduque Ferdinand Maximiliano von Habsburg, futuro Maximilano I, Imperador do México, era descendente da linhagem de Carlos V da Espanha e de Maria Theresia de Áustria, e sobrinho-afim de Vitória da Inglaterra. Primo do imperador Pedro II, foi casado com a princesa Charlotte, filha do Rei Leopoldo da Bélgica.

Nasceu em 6 de julho de 1832, em Viena, numa época de busca de consolidação das tradições monárquicas e conservadoras europeias, que o declínio do sagrado Império Romano-Germânico, dissolvido formalmente 26 anos antes, arrastou consigo. Buscava-se também as conformações dos reinos e impérios nacionais europeus. Além disso, era a época da ordenação dos estados alemães e consequente luta entre a Prússia e a Áustria pela supremacia dentro da Confederação dos Estados Alemães. Entre as mazelas e os bons frutos produzidos pela Revolução Francesa de 1848, o príncipe austríaco encaminhou-se para a carreira naval. Chegou a Comandante da Frota de Guerra aos 24 nos de idade e a Comandante-em-Chefe de toda a Marinha Austríaca. Seduzido pelo mar, desde cedo conheceu a Grécia, a Turquia, regiões da Itália, Espanha, Ilha da Madeira, Albânia, Egito e, por último, o Brasil. 

De cada uma dessas excursões resultou extenso relato, em livros com estofo literário, nos quais foram registradas impressões de viagem com seus pormenores. Tiveram publicação pela imprensa austríaca, em tiragem pequena. Foram sete volumes reunidos sob o título comum Esboços de viagem. A última dessas viagens, a que fez ao Brasil, foi de natureza privada e não mais na posição de representante oficial de seu país. Corresponde ao sonho de conhecer o Novo Mundo e a verdadeira floresta virgem, onde o dia era noite, o sol não penetrava, de tão entrançado o teto formado pela copa de árvores nativas, que dormiam com sua imensa cabeleira verde nas vagas de um sono milenar. Depois que conheceu o Brasil, o futuro Maximiliano I tornou-se Imperador do México onde enfrentou oito anos de reinado conturbado, até que foi fuzilado por ordens de Benito Juárez.

Inserido nos padrões de sua classe social e neles amoldado, viu o Brasil com os olhos de um príncipe em férias. De espírito aventureiro e romântico, amava a Natureza e sempre desejou substituir a convivência repetitiva e enfadonha dos perfumados salões imperiais na Europa por excursões a outros países onde pudesse conhecer diferentes gentes e costumes, assim como a fauna e a flora da mata virgem no Novo Mundo. Sua estada no Brasil teve início em 11 de janeiro e se estendeu até 15 de fevereiro de 1860. Nesse período esteve em Salvador, conheceu o Recôncavo e a Ilha de Itaparica. Andou por alguns dias no Rio de Janeiro, subiu a serra para visitar Petrópolis e regressou depois de passar por Recife, quase dois dias. 

Entre centenas de excursões de viajantes estrangeiros que chegaram ao Brasil no decorrer do século XIX, ocupa lugar destacável a do arquiduque Ferdinand Maximiliano von Habsburg, que ficou registrada no volume Mato virgem, publicado em reduzida tiragem, em Viena, pela Imprensa da Corte e do Estado, em 1864. O relato sobre a viagem que empreendeu o príncipe ao Sul da Bahia, no navio Elizabeth, tem início com a sua chegada ao cais de Ilhéus. Ele descreve o desconforto que teve até chegar ao Sul da Bahia. 

As insuportáveis dores, ora agudas ora como pontadas, ora repuxando, faziam-me recordar vivamente minha falta de atenção por não me ter protegido dos raios solares, despertando-me arrependimento e sofrimento, causando até mesmo crises de desespero, pois eu receava que o estado em que me encontrava pudesse impedir-me de realizar minha tão sonhada expedição à floresta virgem. 

Na sua chegada a Ilhéus, com o navio Elizabeth, de bandeira branca hasteada, veio acompanhado do cônsul da Áustria na Bahia, representante da nobreza austríaca, senhor Lehman, que havia se instalado na Bahia desde 1850, como próspero comerciante exportador. A missão do cônsul era conduzir o ilustre patrício até a propriedade do Senhor Steiger-Muenssinger, um suíço alemão que vivia na região há quinze anos. Ao desembarcar do vapor, foi de barco avisar ao amigo sobre a visita do príncipe enquanto Maximiliano permanecia no navio. 

Desconhecendo o idioma português, o príncipe deixava o sossego e o conforto nobre da Europa para se hospedar na casa-sede da fazenda Vitória, de construção rústica, pertencente ao conterrâneo Frederico von Steiger. Assim começava a realizar sonho tão esperado de visitar a selva habitada de perigos, insetos, feras, serpentes, as estações temperadas pelo clima tropical, diferente do intenso frio europeu. Conheceria uma fauna diversa nas inúmeras espécies e uma flora exuberante, que inundava com a sua beleza o seu olho azul do príncipe. Ficaria impressionado com a vida selvagem de outro conterrâneo, Heinrich Berbert, a quem ele denominou Rei da Floresta, em razão de seus conhecimentos do meio bárbaro onde vivia. Essa figura lendária de alemão usava pequena bússola para se orientar no emaranhado da selva hostil e impenetrável. Era respeitada pelos fazendeiros, negros, índios e a gente mestiça. 

Mato virgem traz a marca de uma escrita sedutora, configurada pelas impressões de um espírito romântico, tão ao gosto da época na Europa, que negava a eficiência da razão e, ao mesmo tempo, comprazia-se em fazer o elogio como afirmação da vida a intuição, a emoção e o amor à natureza. Para Otto Maria Carpeaux, o acontecimento da Revolução Francesa produziu na Europa inteira uma profunda emoção, exprimindo-se em uma literatura de tipo emocional, que se deu a si mesma o nome de romantismo(História da literatura ocidental, vol. IV, p.1852). Nas trilhas do Romantismo, o príncipe Maximiliano von Habsburg achava-se capaz de enfrentar a empreitada de conhecer a natureza bárbara, com dificuldades terríveis, a fadiga em consequência de dias seguidos de marcha através de espessa vegetação, o calor extremo, os ferimentos causados por espinhos e insetos, perigo iminente de serpentes e feras. Seu espírito pertinaz, arrebatado pela emoção que acalentava um sonho antigo, o impelia para se encontrar diante de avassalador cenário bruto, revelador de sustos esplêndidos e descobertas exuberantes. Mergulharia no universo indescritível formado do verde pela floresta, com árvores nativas, de troncos enormes, macacos que saltavam nos galhos como os melhores trapezistas e cantos de pássaros, numa orquestração selvagem, lembrando de novo o nascimento do paraíso. 



Referência 

HABSBURG, Ferdinand Maximilian von. Mato virgem, diário de viagem, tradução de Moema Augel, Editus (UESC), Ilhéus, Bahia, 2010.

*Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. Publicado em Portugal, italiano, francês, alemão, espanhol, dinamarquês, russo e inglês. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

SELEÇÃO DE CONTOS PRORROGADA! APROVEITE!


Para quem ainda não se inscreveu, estamos prorrogando as inscrições para a seleção de contos ABXZ - Caminho das Pedras. Cada selecionado terá direito a um livro totalmente grátis. O que você está esperando? Corre e se inscreve clicando no banner ao lado.

Haverá lançamento coletivo. A promoção é da Editora Via Litterarum, em parceria com a Academia de Letras de Ilhéus.

domingo, 19 de setembro de 2021

SÁBADO QUE VEM TEM TERTÚLIA ACADÊMICA


 

No próximo sábado, dia 25 de setembro, tem a sétima edição do Tertúlias Acadêmicas. Os presidentes Pawlo Cidade, Tácio Dê, Samuel Mattos e Silmara Oliveira das academias ALI - Academia de Letras de Ilhéus, Academia de Letras de Canavieiras, Academia Grapiúna de Letras e Academia de Letras de Itabuna falam do papel e da importância destas confrarias para o Sul da Bahia. Aguardamos vocês pelo canal da Academia de Letras de Ilhéus, no Instagram, às 18h em ponto.

sábado, 11 de setembro de 2021

ARTIGO

             Ilhéus nas criações de Adonias Filho

                           Cyro de Mattos 

          



Na coletânea Histórias dispersas de Adonias Filho, que organizamos, Ilhéus aparece como o espaço ideal para a criação de dois contos desse ficcionista maior de nossas letras. A figura lendária de Dom Eduardo ressurge em O Nosso Bispo, através de imagens trazidas da memória, que em cada episódio exibe a criatura mais humilde e generosa, o único a que os presos amavam, os assassinos e os ladrões eram os irmãos preferidos. O autor ressalta a figura daquele abnegado frei, que percorria as roças de cacau, a pé ou montado pelas estradas de brejo. É para ele que Ilhéus pulsa a alma de sua gente com devoção e fé, reza e tem seu retrato nas casas, as criaturas apanham as flores no jardim porque acreditam que esse homem generoso como um santo, sereno como o mais humilde entre os seres humanos, possui os poderes do céu.

        Em A Lição, o narrador de segurança técnica enfoca o menino na aventura da vida, livre como o vento, ágil como o peixe, alegre como o pássaro. Ao ser levado pelo tio para estudar no internato em Ilhéus, o menino vai saber de repente como a vida é triste quando trancada lá dentro, na alma, com pedaços da infância. O choque causado em razão da mudança da vida livre para a prisão do internato fere e torna o menino, naquele instante, o pior dos rebeldes. Com uma voz mansa, o diretor diz para ele só permanecer na escola por sua livre e espontânea vontade. Ele pergunta se pode tomar um banho. Com a aquiescência do diretor, dirige-se para o banheiro do colégio. Era assim a primeira lição 

     O mar de Adonias Filho, autor de ritmo poético, estilo sincopado na prosa cantante, mostra em Luanda Beira Bahia como exerce seu poder trágico para seduzir os homens, que não conseguem fugir ao destino de seu aceno movediço. Pelas vastidões das águas tudo trocam, pois são incapazes de permanecer na rotina do chão seguro. O mar no romance Luanda Beira Bahia está cheio de desafios e sortilégios. 

 

Os homens de Ilhéus, ali do Pontal e do Malhado, tinham apenas dois caminhos – dois caminhos e nada mais que aprendia. Entravam matas adentro para o ventre da selva ou saíam mar afora para os portos do mundo. Preferiam o mar, os brancos e os negros, os de sangue português e africano, enquanto os caboclos de sangue índio escolhiam os sertões. O mar, assim começavam a andar, era o primeiro brinquedo. (p. 13)

 

                A personagem Lina do Malhado via o que estava muito além do próprio mar. As mulheres queriam os homens e eles, como os filhos, saíam para o mundo. Primeiro fora o marido Pedro, depois o filho, também Pedro. Como se elas, as mulheres, “estivessem a parir homens para o mar.” (p. 13)

                Luanda Beira Bahia apresenta também a personagem Maria da Hora, professora de Caúla, ainda moleque em Ilhéus, é quem traz as primeiras impressões a respeito do continente africano. Em certas horas, a mão negra se abria sobre o mapa e, mostrando os continentes, parava na África. “Homens de Ilhéus estão nesses mares”, observava.

             No romance com sabor de obra-prima, os dois irmãos Caúla e Iuta apaixonam-se e se unem sem que conheçam o parentesco entre eles. Os dois são filhos de João Joanes, o Sardento, “que tinha o doido sangue dos marinheiros, herdado do pai, avô e bisavô”. Durante o tempo que viveu em Angola, João Joanes assumiu a identidade de Vicar. Num desfecho funesto, os três descobrem em Ilhéus, no sul da Bahia, ao mesmo tempo, os laços sanguíneos que os uniam e, diante de situação terrível, o pai põe fim à vida dos filhos e à própria vida como forma de reparar a tragédia que havia promovido.

              O desfecho trágico do amor entre irmãos tem como testemunha a jindiba, árvore que era para o menino Caúla como o centro do mundo. O mar e as colinas tinham nela o ponto de referência. A jindiba de Adonias Filho tem função importante no alcance do verdadeiro efeito dramático carregado de simbolismo. Será derrubada e transformada em canoa, servindo como caixão para guardar os três corpos. Mulheres surgiram, não muitas, flores dos quintais nas mãos. Debruçaram-se sobre o caixão de jindiba e, dentro, viram o Sardento sozinho, em frente. Abaixo, lado a lado, Caúla e Iuta. Colocaram as flores, benzeram-se, fizeram o silêncio.

 

E, logo os homens ergueram o caixão e andaram na direção do cemitério, a chuva caiu como se viesse para lavar o mundo. Pé de Vento atrás, a seguir sem pressa, a pensar que deviam pôr um velame. Um velame de saveiro pequeno na canoa que era o caixão, largá-lo em mar alto, João Joanes e Caúla gostariam daquela viagem como bons marinheiros.

O negro pensando, a andar. E, com o velame aberto, fariam a volta que fizeram por Luanda, Beira, Bahia. (p. 139)

 

       Em Luanda Beira Bahia, romance imantado sobre a dimensão de horror da tragédia, Adonias Filho mostra como consegue construir uma obra literária com valores míticos a impor soluções exasperadas, movidas pelas forças da vida e da morte. Entre a paisagem do mar, que exerce uma atração fascinante às gentes dos Ilhéus, e os mares interiores, fundos, profundos, no vaivém de águas aflitas, impregnadas do amor.

         Os bonecos de seu Pope é um dos livros que Adonias Filho escreveu para o público infantil. Narrado com graça e mistério, conta a história de um velhinho, de poucos dentes, cabelos brancos, rosto vermelho de tomate maduro. Um tipo sábio, que um dia aparece na cidade de Ilhéus com seus bonecos de madeira, bem-falantes, sem que alguém soubesse de onde ele veio com seus filhos, que por serem diferentes atrai a curiosidade das pessoas.  Os bonecos Quincas, Gaspar e Chico são como se fossem de osso e carne, sofrem e amam como qualquer criatura. Quincas pilheriava, Gaspar era o contador de histórias, o que mais agradava, e Chico o que dizia coisas sérias. Vestido como se fosse um artista de circo, conversando com os seus   bonecos de roupas coloridas, o velhote fazia um espetáculo à parte, que atraía gente grande e adulta à praça, aos domingos.  

        Ilhéus serve de cenário luminoso e aconchegante para a exibição desses bonecos, que falam através de Seu Pope, velhinho que tem dez vozes na garganta. O mistério de como os bonecos foram criados por seu dono é guardado por Formiguinha, uma mulher que nascera do encontro entre o arco-íris e uma égua selvagem. Como isso foi possível, ninguém fica sabendo, pois Seu Pope some de Ilhéus no último espetáculo que daria na praça, lotada por gente ansiosa para saber a revelação de tal mistério. 

            Auto dos Ilhéus é um primor de texto no gênero. Está dividido em dez quadros. A Povoação, Os Colonos, Os Jesuítas, Os Sertanistas, A Santa Nossa Senhora, Os Desbravadores, Os Imigrantes, Os Sírios, Os Coronéis e Dom Eduardo. Os quadros cobrem o período de 1535 até o primeiro quartel do século XX, no qual sobressai a figura de Dom Eduardo, o padre dos pobres, pai dos desvalidos, dos necessitados de Ilhéus. Texto escrito com o som da história e as cores do coração recria a epopeia da fundação e desenvolvimento de Ilhéus, ofertando aos pósteros a memória da cidade plantada numa baixa de extensa varjaria, à borda da costa. 

A novela Simoa alude à fase da ocupação da terra na infância da região cacaueira. Simoa veio das águas, foi encontrada na praia dos mares de Ilhéus. Suas atitudes na selva mostram-se ligadas ao plano divino. Torna-se respeitável, será guia no êxodo do povo negro, que recebe no final a nova terra, com a água doce nascendo e enchendo os canais. E todos viram quando ela e seu louro Naro sumiram no fundo da fronteira, em caminho do mar. Os mares de Ilhéus exercem aqui uma função mítica e contribuem para que a solidariedade seja exercida.   

É prazeroso ver como Adonias Filhos demonstra que basta ao escritor tomar como motivação de sua obra o lugar onde nasceu e cresceu, mesmo que seja um ponto desconhecido do mapa, para ser reconhecido no mundo.

 

Referências

MATTOS, Cyro de. (organizador). Histórias dispersas de Adonias Filho, Editus, Ilhéus, 2011.

  FILHO, Adonias. Luanda, Beira, Bahia, Editora Civilização Brasileira,       Rio,17971.

----------------------- Os bonecos de Seu Pope, Edições de Ouro, Rio, 1989.

----------------------- Auto dos Ilhéus, Civilização Brasileira, Rio, 1981.

-----------------------"Simoa”, em Léguas da Promissão, Civilização Brasileira,             Rio1968. 

 

 

 

 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

SESSÃO DA SAUDADE DO ESCRITOR GUMERCINDO ROCHA DÓREA SERÁ REALIZADA ESTE MÊS DE SETEMBRO



Com saudação da confreira Maria Luiza Heine, a sessão da saudade do saudoso confrade Gumercindo Rocha Dórea, efetivo anterior da cadeira nº 40, que nos deixou este ano, em 21 de fevereiro, aos 96 anos, será realizada no dia 22 de setembro, às 19 horas e será transmitida pelo Facebook e Youtube da Academia de Letras de Ilhéus.

Gumercindo Rocha Dórea foi o primeiro editor de escritores que se tornaram célebres, como Rubem Fonseca e Nélida Piñon, além de ter sido um dos pioneiros na divulgação da literatura de ficção científica no Brasil. O confrade faleceu em decorrência de complicações do tratamento de um câncer. 


Nascido em Ilhéus, na Bahia, em 1924, mudou-se com a família dez anos depois para Salvador, onde foi aluno do filólogo Herbert Parentes Fortes, um dos principais intelectuais e líderes da Ação Integralista Brasileira (AIB).


Aos 20 anos, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, formando-se em Direito. Lá, escreveu para o jornal "A Marcha", ligado ao Partido de Representação Popular, e entrou em contato com o mentor do integralismo, Plínio Salgado (1895-1975), que sedimentaria suas convicções políticas conservadoras.


Saiba mais sobre o confrade Gumercindo Rocha Dórea CLICANDO AQUI

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

ACADEMIA DE LETRAS ELEGE NOVO EFETIVO

Manoel Carlos irá ocupar a cadeira de nº 39


O ilheense Manoel Carlos de Almeida Neto irá ocupar a cadeira nº 39, em substituição ao saudoso confrade José Cândido de Carvalho Filho. O ato de indicação foi chancelado por 22 (vinte e dois) membros da Academia, portanto, maioria absoluta neste momento em que ainda estamos com duas vacâncias na confraria. A escolha se deu eu reunião ordinária, com a pauta específica das indicações, conforme rege os estatutos da ALI.

 

Subscreveram a indicação: Edvaldo Brito, Jabes Ribeiro, Luiz Pedreira, Sebastião Maciel, Soane Nazaré, Carlos Valder, Cyro de Mattos, Neuza Nascimento, Antônio Ezequiel, Antônio Lopes, Josevandro Nascimento, Ramayana Vargens, André Rosa, Pawlo Cidade, Luh Oliveira, Anarleide Menezes, Aleilton Fonseca, Jane Hilda, Maria Schaun, Carlos Alberto Arléo Barbosa, Gerson dos Anjos e Rui Póvoas.

 

O FUTURO CONFRADE

 

Manoel Carlos de Almeida Neto, 41 anos, é casado com Melissa Ribas de Almeida, com quem têm um casal de filhos (Isadora, 8 anos e João Manoel, 4 anos), e se divide entre a vida acadêmica na USP e encargos jurídicos no eixo Brasília-São Paulo.

 

Na seara acadêmica, é Professor da Faculdade de Direito da USP, nas Arcadas do Largo São Francisco, aprovado em seleção pública, para a área de Teoria do Estado. 

 

É Doutor em Direito do Estado pela USP, grau obtido “summa cum laude”, em 2013, e pós-doutorando pela mesma instituição. É Mestre em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em cooperação e créditos cursados na Universidade de Brasília (UnB), em 2008, e foi Professor da Faculdade de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), entre 2005 e 2006, na cadeira de Teoria do Estado.

 

Publicou os livros “O Novo Controle de Constitucionalidade Municipal” (editora Forense, 2010); “Direito Eleitoral Regulador” (editora Revista dos Tribunais, Thomson Reuters, 2014); “Juiz Constitucional” (coordenador, editora Revista dos Tribunais, 2015); e as seguintes obras, em coautoria: “A Constituição entre o Direito e a Política” (editora Mundo Jurídico, 2017); “O Supremo por seus Assessores” (editora Almedina, 2014); “Reflexões sobre a Constituição” (editora Leya, 2013); “O Novo Direito Eleitoral Brasileiro” (editora Fórum, 2012); “Direito Eleitoral em Debate” (editora Saraiva, 2012), além de inúmeros artigos veiculados em jornais e revistas especializadas no Brasil e no exterior.

 

No campo profissional, é advogado, Secretário-Geral da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB Nacional e exerce, desde janeiro de 2016, o cargo de Diretor Jurídico da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), empresa multinacional brasileira, 100% privada e de capital aberto. Foi Secretário-Geral da Presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), entre 2014 e 2016, e Secretário-Geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entre 2010 e 2012.

 

Entre prêmios e títulos, foi agraciado com a “Medalha do Pacificador”, pelo Exército Brasileiro, 2011; com a “Ordem do Mérito Militar, no grau de Comendador”, pelo Exército Brasileiro, em 2011; com o “Troféu Dom Quixote de La Mancha”, pela Revista Justiça & Cidadania, em 2014; com a “Medalha Mérito Santos Dumont”, pela Aeronáutica do Brasil, em 2015; com a “Grande Medalha da Inconfidência”, pelo Estado de Minas Gerais, em 2015, e com a “Medalha Mérito Tamandaré”, pela Marinha do Brasil, em 2021.

 

Manoel Carlos de Almeida Neto é neto do saudoso Manoel Carlos Amorim de Almeida, que muito honrou a Academia de Letras de Ilhéus, ocupando a cadeira de número 33. A posse do futuro confrade ainda será designada pelo presidente, conforme rege o Regimento, e a saudação à sua chegada será discutida com o eleito. 

 

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

ARTIGO

 

James Amado: 1912 - 2001

Situação de James Amado

Cyro de Mattos*

 

Os exemplos não são poucos em que autores de uma obra importante não impressionam à crítica arguta com o livro da estreia. As imperfeições são flagrantes.  O talento e a entrega ao fazer literário não se tornam  suficientes para que o nascimento do escritor aconteça  no texto de nível superior reconhecido. Fundo e forma demonstram instabilidade. Vícios e virtudes convivem em alguns trechos.

 É muito grande o salto que James Joyce deu entre a primeira fase de sua obra e a segunda com Ulisses (1966), considerada esta como subversiva na estrutura tradicional das formas narrativas da novelística ocidental.  Machado de Assis no passado e Jorge Amado no presente podem ser assinalados entre nós como escritores que se tornaram importantes com a obra em andamento, ficando a desejar com os seus livros primeiros. Os romancistas Assis Brasil e Lígia Fagundes Telles chegaram ao ponto de  riscar  de sua bibliografia  o livro de estreia por considerá-lo insignificante como expressão literária na prosa de ficção.     

      .    O fato repetiu-se  com os nossos autores ao longo dos anos em razão de  nossa novelística  ainda não ter se aprofundado na renovação dos processos  formais  de criação  e firmado uma tradição de autonomia. A intuição predominava na construção do texto, os instrumentos de concepção e execução da obra não tinham sido bem assimilados. O risco do desequilíbrio entre a forma e o fundo ocorria sem que fosse obtido o efeito eficaz da projeção positivada.

          Adonias Filho, com Os servos da morte (1946), João Guimarães Rosa,  comSagarana(1946),  Samuel Rawet, com os Contos de imigrante (1956), Clarice Lispector, com  Perto do coração selvagem (1944),  José J. Veiga, com  Os Cavalinhos de Platipanto (1959) e  Luís Vilela , com  Tremor de terra (1967), entre outros, são exemplos de autores bem-sucedidos na estreia. 

O romancista levado a construir um universo ficcional com linguagem adequada e moderna, diferente dos meios tradicionais empregados na sua época e antes dela, adota elementos formais novos para focar sua temática característica. Expande suas visões oblíquas do mundo ao introduzir no conteúdo os motivos decorrentes das relações sociológicas e regionais, trabalhando com a perspectiva formal moderna, que projeta encontrar para a narrativa uma maneira incomum de dizer sobre seres e coisas, com base numa técnica avançada. Exemplo disso é o romancista James Amado com o seu Chamado do mar, livro de estreia,  o único de ficção que o autor escreveu.

James Amadoé o terceiro e último filho de João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, desbravadores da região cacaueira baiana, na época da conquista da terra. Nasceu em Ilhéus, em 1922. Era o irmão caçula de Jorge Amado. Com Chamado do mar obteve menção honrosa no Prêmio Paulo Prado, em 1949.

O livro reproduz um território que alterna a paisagem marinha e a servidão à terra, tendo como cenário Pontal dos Ilhéus, no Sul da Bahia.  A ambiência de natureza marinha é o local em que acontecem conflitos interiores e sociais vividos por pescadores numa colônia de pesca. É um dos romances mais vigorosos da ficção brasileira que tem como motivação o mar e sua gente. Acontecem os dramas de ordem psicossocial numa paisagem típica e regional, com personagens convincentes que transmitem a imagem da criatura humana afundada numa conjuntura miserável, marcada pelas injustiças sociais.

Na incursão por sentimentos baixos e desvãos da alma, em que entra o desespero, a revolta, o ciúme e o medo, o lirismo não é deixado de lado. A praia e a economia do cacau com suas mazelas servem como referenciais contrários à paisagem humana em que criaturas primárias vivem a dura realidade diária carregada de dramas. O que chama atenção nesse romance com forte apelo do mar é a técnica usada, que difere da empregada por Jorge Amado em seus romances de conteúdo popular. Se em Jorge Amado o que interessa   para a teia romanesca se tornar interessante é contar a história  como se apresenta na vida real, com uma linguagem que corresponda a do povo, despretensiosa, em nível da fala,  através do relato que se desenvolve nas ações dos personagens com princípio, meio e fim, em James Amado o procedimento do ficcionista moderno toma direção inversa.

 Existe no autor de O Chamado do mar uma técnica moderna na montagem do romance. Na estrutura da obra entra o corte cinematográfico, o uso do contraponto e do monólogo interior. Aqui com propriedade são empregados os meios adequados modernos para auscultar a alma e expor o drama. Os personagens ganham dimensão na trama, ocupando um curso que avança em situações descontínuas dos movimentos. 

Narrado assim, com a técnica moderna dos ficcionistas norte-americanos, que trouxeram para a estrutura do romance, após a Segunda Guerra Mundial, o uso do contraponto e do tempo cronológicolinear fragmentado, desmembrado para se associar à trama, até hoje Chamado do mar guarda a áurea de texto romanesco inovador e mantém o segredo perene de atualidade. Personagens de marcante psicologia sobressaem no desenvolvimento fragmentado do enredo, como Alício, Arlinda, Tonha, Yazinha, José Alves e Vicente.

Tradutor de Tolstoi, Eugene O’Neil, Hemingway e Sartre, James Amado foi também o responsável pela edição das Obras Completas de Gregório de Matos, publicadas pela Editora Janaina, em Salvador.  Pena que publicasse apenas um romance, dos bons. Talento, vocação e consciência do ofício, qualidades que lhe sobravam, infelizmente não foram requisitos  suficientes para motivá-lo a escrever  livros de contos ou romances, deixando um legado  expressivo em termos de criação no panorama das letras brasileiras. Seu conto “A sentinela” participa de três antologias: Panorama do Conto Baiano, organizada por Nélson de Araújo e Vasconcelos Maia; Histórias da Bahia, por Adonias Filho, eModerno Conto da Região Cacaueira, por Telmo Padilha.

           Formado em sociologia e política, James Amado foi atuante na política e tinha posições firmes na defesa da democracia. E na luta pela liberdade. Dono de um humor cáustico, exerceu o jornalismo no Rio. Foi casado com Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Ocupou como membro efetivo a cadeira 27 da Academia de Letras da Bahia. Faleceu em 1* de dezembro de 2013, em Salvador.

 

Referência

AMADO, James. Chamado do mar, romance, Editora Record. 5ª. edição, Rio de Janeiro, 1977. 

* Membro da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

NESTE SÁBADO TEMOS NOVA EDIÇÃO DO TERTÚLIAS ACADÊMICAS COM OS CONFRADES GERALDO LAVIGNE E JOSEVANDRO NASCIMENTO


 

Na sexta edição do Tertúlias Acadêmicas, transmitida pelo Youtube e Facebook, os confrades Geraldo Lavigne e Josevandro Nascimento abordam questões sobre o papel do direito ontem e hoje. Vale a pena conferir no dia 21 de agosto, a partir das 18h.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

CONFRADE JOSEVANDRO NASCIMENTO LANÇA SEGUNDA EDIÇÃO DE FUNDAMENTOS DE DIREITO PENAL



O confrade, advogado e professor Josevandro Nascimento, informa que a 2a. edição revista e atualizada do seu livro Fundamentos de Direito  Penal, já está à venda.  Trata-se, como o autor mesmo diz, de "um livro básico  de Direito  Penal que procura mostrar aos alunos, os principais Instituto de Direito Penal, trazendo, ainda, um capítulo sobre a pena como  consequência do crime. 

O livro teve muita repercussão da comunidade acadêmica. Trás um prefácio do Prof. Yuri Coelho, renomado jurista baiano, prof  de Direito Penal em diversas Faculdades em Salvador.