quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ARTIGO



AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL: PRÉ-MODERNISMO E MODERNISMO

Por Cyro de Mattos




Em 1902, o livro Os sertões, de Euclides da Cunha, 
surge como o nosso grito de liberdade intelectual.



A arte no Brasil originou-se das transplantações de concepções europeias que se foram desenvolvendo entre os séculos XVI e XVII. Em observação lúcida, afirma Alfredo Bosi: 

"Se por Modernismo entende-se algo mais que um conjunto de experiências de linguagem; se a literatura que se escreveu sob o seu signo representou também uma crítica global às estruturas mentais das velhas gerações e um esforço de penetrar mais fundo na realidade brasileira, então houve, no primeiro vintênio exemplos probantes de inconformismo cultural". (História Concisa da Literatura Brasileira, Cultrix, página 375)

No final do século dezenove e início do vinte, o Parnasianismo e o Simbolismo eram as estéticas exercitadas no Brasil literário para expressar a vida com seus sentimentos de natureza diversa. No entanto mostravam-se empalidecidas no contexto sincrético de final do século dezenove e começo do vinte para questionar a vida com sua problemática existencial do indivíduo, desprovidas de vocação e ideias para refletir uma afirmação de identidade nacional quanto aos problemas da realidade brasileira. O espírito entre os intelectuais que cultivavam as duas estéticas era de estagnação reinante em face do contexto da época. Nossos escritores eram verdadeiros exilados europeus. Vivia-se com o sonho de Paris, o pensamento na Europa, nenhum era chamado verdadeiramente de culto se não falasse em Ajax, Heitor e no cerco de Troia. 

Vivia-se falando de nossas coisas como astros distraídos. Discutiam-se problemas políticos e literários sem um ideal superior de nacionalidade, que a todos congregue e irmane. Desdenhava-se o que era pátrio e nosso. A literatura para alguns era fazer a arte pela arte, para outros não passava de puro diletantismo, identificava-se como o sorriso da sociedade. Coelho Neto, símbolo do poder verbal na época, expressava-se com artifícios, adorno e sonoridade das palavras no lugar da ideia como aferição substantivada de nossas realidades. 

Apesar de a vida ser falseada, em clima alimentado pelo espírito da “belle époque”, quando era necessário ver o Brasil com os seus problemas reais, o incremento de nossa realidade no magma nacional assinalava alguns escritores que já se preocupavam com nossas coisas e gentes. Eram uns inconformados. Percebiam até certo ponto que nossa civilização diferente era formada por elementos estabelecidos aqui nos trópicos. Lima Barreto, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha apareciam para interromper a opereta repetitiva que incorporava a vida nossa no caldo do ócio e do inútil. 

No ambiente cultural postiço acrescido de alexandrinos exatos, com cesura e tudo, irrompia a estética da sinceridade formulada por Lima Barreto, nosso iniciador do romance social. O criador de Policarpo Quaresma queria ter o direito de ser ouvido aos descuidados por meio de uma literatura atuante, imbricada em nossa realidade, sem ser contemplativa, mas de motivação autóctone. Rebelando-se contra a postura de nossos intelectuais marcada pela futilidade das tertúlias e saraus, desejava uma literatura que falasse de nossas verdades, não aquela outra a encontrar belezas em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava havia se esfumado com a morte dos que a adotavam. 

O processo de integração da inteligência e cultura em nossa realidade encontra na figura de Monteiro Lobato outro escritor tomado de consciência dos nossos problemas, contrário à mentalidade vigente que extraía dos modelos europeus ideias, valores e costumes para incorporá-los ao nosso contexto social e político. Nosso sistema de pensar a vida nos moldes europeus, desvalorizando as poucas coisas boas que nos restavam, propiciava o momento oportuno para Monteiro Lobato lançar a figura do Jeca Tatu, caboclo dominado por uma tristeza crônica. 

Em 1902, o livro Os sertões, de Euclides da Cunha, surge como o nosso grito de liberdade intelectual. A obra mostra o retrato de um Brasil excluído, injustiçado nas camadas pobres, expondo sua miséria, seu dia sem esperança. Pela primeira vez era mostrado ao Brasil das tertúlias e saraus na metrópole um Brasil do agreste, messiânico, sofrido. Entendido como forte ameaça ao sistema organizado, esse Brasil maltrapilho vai ser massacrado sem piedade, com sua gente faminta, pelo sistema organizado.

O conto brasileiro nessa época revela-se como testemunho de nossas realidades geográficas, apresentando os seus viventes típicos e linguagens regionais. Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Hugo de Carvalho Ramos e J. Simões Lopes Neto aproveitam nossa paisagem como conteúdo do que se relata e aproxima os personagens da natureza. 

A Musa Perfeita de Bilac e a Musa Mística de Alphonsus de Guimarães perdiam suas cores, retirando-se do cenário em final do espetáculo. São as inovações formais trazidas da vanguarda europeia que exercem agora as atrações. Contribuem para a formação do espírito modernista, forjando um clima que iria motivar em torno de uma nova expressão artistas como Anita Malfati, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Pichia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira.

A afirmação de novos ideais estéticos não acontecia por acaso. Como predecessor importante da Semana de 22, houve a Exposição de Pintura Moderna – Anita Malfatti, que ocorreu em 1917, também em São Paulo. Cinquenta e três obras da pintora foram apresentadas ao lado de obras de artistas internacionais ligados às vanguardas europeias. As telas impressionaram nomes que liderariam, depois, a Semana de 22, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Di Cavalcanti. Antes de acontecer o conflito de 22, no Teatro Municipal de São Paulo, Oswald de Andrade conhecera em Paris o Manifesto Futurista de Marinetti. Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Manuel Bandeira travaram conhecimento com as novas ideias das vanguardas europeias. 

O século vinte sob novos signos daria condições absolutamente inéditas ao mundo. Provocaria transformações radicais na Europa com a revolução industrial. O mundo seria envolvido por duas guerras mundiais, que trariam efeitos nefastos à humanidade. Uma nova época social, política e econômica surgiria apoiada nos princípios liberais do capitalismo. 

Uma revolução tecnológica aperfeiçoava as máquinas de combustão, a utilização da eletricidade nas indústrias fomentava o progresso. Em Portugal, Fernando Pessoa, pela voz incandescida e mente turbulenta de Álvaro de Campos, cantaria em “Ode Triunfal” a “nova revelação metálica e dinâmica de Deus.” Sob o signo da técnica, os meios de transportes avançavam, e o Brasil procurava beneficiar-se dos meios e recursos que a mecânica proporcionava ao bem-estar da vida. 

Ventos outros sopravam o progresso, a modernidade e a afirmação da nacionalidade. E uma nova época esperava também uma arte nova, que exprimisse a saga desses tempos e do futuro. O cenário estava pronto para que o espetáculo da Semana Moderna de 22 fosse apresentado com seu caráter polêmico e provocativo. E uma nova época esperava também que uma nova arte exprimisse a saga desses tempos e do futuro com a atualização intelectual da consciência nacional. O Brasil, que se transformava e se modernizava, precisava de um novo olhar artístico, sociocultural e filosófico que propusesse uma arte nacional, original e atualizada, trazendo consigo um pensamento a respeito dos problemas brasileiros e da variedade cultural que se estendia por nosso vasto território.

O descobrimento de um Brasil novo, como afirmação de modernidade e compromissado com a nacionalidade, aprofundando-se no processo nativista que buscasse incorporar nossas coisas e gentes à inteligência brasileira, iria ser feito pelos intelectuais da Semana Moderna de 22, em São Paulo, novo polo econômico industrial. Ocorreria a Semana de 22 capitaneada por Mário de Andrade, ficando marcado o evento como o maior escândalo que um movimento artístico poderia causar entre nós, reunindo declamações de poema, palestra, música, exposições de escultura, pintura, arquitetura, manifestações do que havia de atual nas vanguardas europeias.

Mesmo sem um ideário estético, linhas de pensamento e de conhecimento filosófico que aprofundem as exigências da afirmação e atualização de um país periférico, a Semana de Arte Moderna reuniu artistas das mais diversas áreas no Theatro Municipal de São Paulo, ao longo dos dias 13 e 18 de fevereiro de 1922. Teve como objetivo problematizar e participar de nossa realidade social e cultural, registrando uma experiência artística que propôs uma arte nacional original e atualizada, trazendo consigo um pensamento a respeito dos problemas brasileiros e da variedade cultural que se estendia por nosso vasto território.

A primeira fase do Modernismo, de 1922 a 1930, é concebida como de destruição ao academicismo e ao passado. Destaques: os romances Macunaíma, de Mário de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, os livros de poemas Ritmo Dissoluto, de Manuel Bandeira, Vamos Caçar papagaios, de Cassiano Ricardo, e os contos de Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio Alcântara Machado. A segunda, de 1930 a 1945, é marcada pelo Romance Nordestino de 30, representado por José Américo de Almeida, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. A terceira, de 1945 a 1960, contextualiza-se pela geração de poetas menos radicais quanto à oposição ao passado; recorre-se ao soneto, o discurso emerge do texto sem o uso contundente das liberdades formais. Na ficção, dá-se a espiritualização do regional, despreza-se o documental, ausculta-se a alma do herói em crise, que também narra a história no fluxo e refluxo da vida. Na fase contemporânea, denominada de pós-modernista, destaca-se a reinvenção da linguagem como elemento estruturante da narrativa para expor o imaginário coletivo e individual, a auscultação da alma do herói em crise, que se expõe através do que pensa, também conta a história no fluxo e refluxo da vida. 


Referências


ARINOS, Afonso. Pelo sertão, contos, Edições de Ouro, Rio de Janeiro, 1967.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma, romance, Editora Brasiliense, 1956.

BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro, volume I, Edição Saraiva, São Paulo, 1958. 

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900, Ministério de Educação e Cultura, Rio de Janeiro (sem data). 

BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental, volume II, Editora O Globo, 1982. 

CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1964.

CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato, Editora Brasiliense, dois volumes, São Paulo, 1962. 

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil, volume II, Editorial Sul Americana, Rio de Janeiro, 1955. 

CUNHA, Euclides da. Os sertões, Editora Livraria Francisco Alves, edição 22, Rio de Janeiro, sem data. 

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo, Livraria Conquista Editora, Rio de Janeiro, sem data. 

MASSAUD Moisés e PAES José Paulo, Pequeno dicionário de literatura brasileira, Editora Cultrix, São Paulo, 1980. 

MASSAUD, Moisés. Dicionário de termos literários, Editora Cultrix, São Paulo, 1982. 

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. História da literatura brasileira – prosa de ficção, Livraria José Olympio, Rio de Janeiro, 1957. 

NETO, João Simões Lopes. Contos gauchescos e lendas do sul, Editora Globo, Porto Alegre, 1965. 

PESSOA, Fernando. “Ode Triunfal”, in Obra poética, Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1960. 

PORTELLA, Eduardo. Literatura e realidade nacional, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1971. 

RAMOS, Hugo de Carvalho. Tropas e boiadas, Livraria José Olympio. 

SILVEIRA, Valdomiro. Mixuangos, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1937. SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1960.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

EDITAL CASA DE ABEL DIVULGA RESULTADO FINAL DOS SELECIONADOS





A Comunidade Tia Marita, a Universidade Estadual de Santa Cruz e a Academia de Letras de Ilhéus divulga o resultado final da seleção de autores para a Casa de Abel – Espaço de Autores Sul-Baianos!, durante a 
 9ª Festa Literária de Ilhéus

Parabenizamos todos os selecionados que farão parte desse espaço dedicado à valorização da literatura e dos talentos da nossa região!

ATENÇÃO, SELECIONADOS! Acessem seus e-mails pessoais e verifiquem as informações encaminhadas pela organização. Não deixem de conferir também a caixa de spam!

Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.



SELECIONADOS


CELMA ANUNCIAÇÃO MELO MONTEIRO

EDERIVALDO BENEDITO SANTOS

ISAAC ALBAGLI DE ALMEIDA

JUCIARA COSTA SOUZA FROTA

LOURIVAL PEREIRA JÚNIOR

MÁRCIO RIBEIRO

MARIANA LIMA DE OLIVEIRA

MOEMA DE SOUZA BÁFICA

RODRIGO DIAS SOUZA

RUTE PRAXEDES DOS SANTOS KOROL

THAÍSE DE SANTANA SANTOS

YAMIL AXEL ESCAFFI GUZMAN









segunda-feira, 26 de outubro de 2026

EDITAL CASA DE ABEL — COMUNICADO DE RESULTADO DE RECURSO DEFERIDO



EDITAL UESC Nº 167/2026 
9ª FESTA LITERÁRIA DE ILHÉUS 
CASA DE ABEL: ESPAÇO DE AUTORES SUL-BAIANOS


A Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), a Comunidade Tia Marita e a Academia de Letras de Ilhéus (ALI), por meio da Comissão de Seleção, tornam público que, após análise do recurso apresentado pelo candidato Yamil Axel Escaffi Guzman, referente ao resultado preliminar do Edital nº 167/2026, o pedido foi considerado DEFERIDO.

Em decorrência do deferimento, fica reconhecida a revisão da pontuação do candidato, com a devida atualização de sua classificação, conforme os critérios estabelecidos no referido edital.

A decisão será considerada na publicação do resultado final do processo seletivo para composição da programação da Casa de Abel: Espaço de Autores Sul-Baianos, no âmbito da 9ª Festa Literária de Ilhéus.


Ilhéus, 25 de outubro de 2026.


Comissão de Seleção 
Casa de Abel: Espaço de Autores Sul-Baianos
Edital UESC nº 167/2026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

ALI PUBLICA RESULTADO PRELIMINAR DO EDITAL CASA DE ABEL



A UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ, a COMUNIDADE TIA MARITA e a ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS tornam público o RESULTADO PRELIMINAR PARA COMPOSIÇÃO DA PROGRAMAÇÃO DA CASA DE ABEL — ESPAÇO DE AUTORES SUL-BAIANOS, no âmbito da 9ª FESTA LITERÁRIA DE ILHÉUS, nos termos e condições estabelecidos no item 1.6, do Edital nº 167, de 10 de outubro de 2026.

 

 

ORDEM

 

ESCRITOR(A)

PONTUAÇÃO

1º

Moema de Souza Báfica

8

2º

Celma Anunciação Melo Monteiro

8

3º

Lourival Pereira Júnior

8

4º

Rute Praxedes dos Santos Korol

8

5º

Mariana Lima de Oliveira

7

6º

Juciara Costa Souza Frota

7

7º

Isaac Albagli de Almeida

7

8º

Rodrigo Dias Souza

6

9º

Ederivaldo Benedito Santos

6

10º

Nei Antonio Matos dos Santos

6

11º

Thaíse de Santana Santos

6

12º

Márcio Ribeiro

6

 

Em tempo, fica aberto o período de recursos em face deste resultado preliminar, conforme o item 4.2., do supracitado edital, até o dia 22 de outubro de 2026. O candidato que desejar obter informações sobre as razões de sua respectiva desclassificação, deverá enviar e-mail para academiadeletrasdeilheus@gmail.com , colocando no assunto: Edital Casa de Abel + nome do proponente.

 

Ilhéus, Bahia, 19 de outubro de 2026

 

 

Comissão Avaliadora

 



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ARTIGO


Canavieiras, Flisba e Memória



Sítio Histórico do Município de Canavieiras


O município de Canavieiras está situado no sul da Bahia e possui quase 33 mil habitantes, conforme censo do IBGE, em 2022. A cidade cresceu às margens do Rio Pardo, cujas águas viram brotar os primeiros pés de cacau, na Fazenda Cubículo, por volta de 1746. Mais tarde, o cultivo do cacau mudaria à realidade da nação grapiúna e foi nesse cenário que a 5ª edição do Festival Literário Sul Bahia (Flisba) ocorreu entre 20 e 22 de agosto último. O Flisba teve como tema “Literatura e sustentabilidade: um encontro com a cultura popular”. De fato, não haveria um chão tão simbólico, como Canavieiras, para debater conteúdos relacionados à preservação do meio ambiente, às questões culturais, o patrimônio histórico e a literatura.

Na cidade de Canavieiras nasceu Elvira Foeppel, em agosto de 1923, cuja mulher se enveredou pela literatura. Mudou-se para Ilhéus, onde conviveu com diversos intelectuais: Adonias Filho, Cyro de Mattos, Hélio Pólvora, Dorival de Freitas, Sosígenes Costa, Raimundo Sá Barreto e Jorge Amado entre outros. Posteriormente, foi morar no Rio de Janeiro e se tornou amiga de Clarice Lispector. Elvira atuou em jornais do sul da Bahia, assim como no Rio de Janeiro e publicou livros literários. Sobre a produção literária de Elvira, o escritor Hélio Pólvora comentou: "Muito lida, conhecedora dos bons textos em prosa e verso, amadurecida, Elvira destacava-se intelectualmente em seu meio. Uma mulher que sabia das coisas."

Canavieiras também foi o lugar de morada de Afrânio Peixoto, cuja produção intelectual o imortalizou na Academia Brasileira de Letras. O literato apresenta noslivros “Maria Bonita”, publicado em 1914, pela primeira vez, as paisagens e o contexto das fazendas de cacau baianas, assim como em “Fruto do Mato” de 1920, o interior baiano e a expansão agrícola do cacau. Por sinal, alguns estudos têm apontado que a cultura do cacau contribuiu para a preservação da mata atlântica no polígono da cultura do cacau, visto que a plantação do cacau precisava de sombra - fenômeno da cabruca.

Então, Canavieiras foi abençoada pela literatura e por diversas manifestações culturais. Caminhar pelo sítio histórico é constatar uma boa quantidade de casas e sobrados preservados pelos moradores e comerciantes. As fachadas e pinturas guardam os tempos áureos do cacau e a forte circulação de pessoas. Agora, observa-se a cidade caminhando para a consolidação do turismo, da pesca esportiva e a produção de chocolates. Canavieiras merece ser interligada a Belmonte por meio da ponte sobre o Rio Pardo e rodovia, encurtando a distância das cidades do Litoral Sul e da Costa do Descobrimento, consolidando o turismo baiano sob a lógica do desenvolvimento sustentável.



Efson Lima

Professor de Direito Internacional da Unilab. Membro das Academias de Letras de Ilhéus e da Grapiúna de Artes e Letras e da Comissão Organizadora do Flisba

efsonlima@gmail.com

terça-feira, 25 de agosto de 2026

5ª edição do Festival Literário Sul Bahia movimentou Canavieiras com mais de 40 atividades durante três dias




Roda de Conversa no Sítio Histórico de Canavieiras/Foto: Wiu

A 5ª edição do Festival Literário Sul Bahia (Flisba) foi encerrada no último sábado (22/08), após três dias de uma intensa programação que contou com cerca de 40 atividades, entre debates, oficinas, lançamentos de livros e apresentações artísticas. O evento deste ano aconteceu no Sítio Histórico de Canavieiras e reuniu cerca de 50 convidados de toda a Bahia, entre escritores, pesquisadores, ambientalistas, fazedores de cultura e livreiros.

Com o tema “Literatura e Sustentabilidade: um encontro com a cultura popular”, a 5ª edição do Flisba também prestou uma homenagem ao escritor grapiúna Adonias Filho. Na ocasião, foi realizada a exposição “Adonias Filho - A voz literária do sul da Bahia” e exibido o documentário “Adonias“, em parceria com a Academia Grapiúna de Artes e Letras (AGRAL).

Segundo Josanne Morais, presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras, as homenagens pretenderam fazer com que o público enxergasse Adonias Filho “não apenas como nome consagrado da literatura brasileira, mas como intelectual profundamente vinculado ao território, às paisagens humanas e às tensões históricas e existenciais do Sul da Bahia”.

Gratuito e aberto a todos os públicos, o Flisba também teve uma feira de economia solidária – organizada pelo Centro Público de Economia Solidária (Cesol) Litoral Sul -, tendas de venda de livros, palco para apresentações artísticas e um espaço dedicado à programação infantil. No Flisbinha, as crianças de todas as idades tiveram acesso a apresentações musicais, contação de histórias e brincadeiras.

De acordo com Luh Oliveira, presidente da Academia de Letras de Ilhéus e uma das organizadoras do Festival, o Flisbinha foi um espaço de encontro e aproximação entre os estudantes e a literatura. “Foi muito significativo perceber a participação e o encantamento dos alunos, sobretudo daqueles que estavam, pela primeira vez, diante de um escritor. São encontros assim que ajudam a formar leitores e a tornar a experiência com a literatura mais viva”.

Os colégios de Canavieiras, públicos e privados, aderiram à atividade e enviaram turmas para o Festival. Junto aos outros participantes – da cidade e convidados de fora -, os estudantes que participaram dos debates concorreram a brindes, entre livros e materiais escolares.

Para Efson Lima, da Academia de Letras de Ilhéus e um dos organizadores da atividade, a realização da 5ª edição confirma a importância do Flisba no sul da Bahia, “ao reunir as diferentes linguagens artísticas e as Academias de Letras da região, bem como os diversos escritores, poetas e artistas, e ao manter vivo o seu objetivo de circular nos municípios sulbaianos”.

A palestra de abertura do Festival, na quinta-feira (20), foi ministrada por Albino Rubim, ex-secretário de Cultura do Estado da Bahia e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em uma parceria com o Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Território Litoral Sul da Bahia (FAEG).

“Viver o Flisba em Canavieiras foi compartilhar conhecimentos e semear cultura com nativos e visitantes de forma intensa e contagiante”, resumiu o escritor Tácio Dê, um dos organizadores do evento.

sábado, 8 de agosto de 2026

DIA 10 DE AGOSTO: CELEBAR 114 ANOS DE JORGE AMADO

 

JORGE AMADO — 1912 - 2001


No dia 10 de agosto, ao celebrarmos os 114 anos de Jorge Amado, reconhecemos a permanência de uma obra que continua a produzir sentidos e que, para além de sua dimensão estética, constitui-se como espaço de memória, identidade e representação de um povo. Cada romance configura uma cartografia cultural na qual o território se converte em linguagem e a linguagem, por sua vez, transforma-se em patrimônio.

É nesse horizonte que a grapiunidade adquire centralidade. Antes de alcançar o mundo, Jorge Amado encontrou, na Região Cacaueira da Bahia, o núcleo de uma experiência humana que marcaria definitivamente sua criação. O universo do cacau, longe de ser simples cenário, configura um território simbólico onde se entrecruzam relações de poder, migrações, conflitos, solidariedades e afetos. A paisagem deixa de ser mero pano de fundo para tornar-se protagonista da história.

A literatura de Jorge Amado demonstra que os territórios são também construções culturais. A Região Grapiúna emerge como espaço de memória coletiva, onde vozes, costumes, saberes e narrativas resistem ao apagamento. Nesse contexto, escrever é preservar modos de existência, reafirmar pertencimentos e transformar a experiência regional em patrimônio da humanidade. Aí reside muito da singularidade de sua obra. O escritor não universaliza a Bahia porque abandona o regional; universaliza-a porque mergulha profundamente em sua cultura. Quanto mais enraizada é sua narrativa, mais ampla se torna sua capacidade de dialogar com diferentes povos e tempos. O local converte-se em linguagem universal.

Os clássicos permanecem porque continuam produzindo novas leituras e novos sentidos. Jorge Amado permanece entre nós não apenas pela força de seus personagens, mas porque sua obra nos convida, continuamente, a revisitar os territórios da memória, a reconhecer a diversidade como fundamento da cultura e a compreender que a literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.

Ao celebrar seus 114 anos, celebramos também a vitalidade da grapiunidade como patrimônio cultural e literário. Nesse encontro entre memória, território e palavra — Cacau, Terras do Sem-Fim, São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Tocaia Grande —, Jorge Amado permanece vivo, lembrando-nos de que as identidades não se encerram no passado: renovam-se cada vez que a literatura devolve uma comunidade à consciência de si mesma. E sabemos que sua obra atravessa as fronteiras regionais e conta-canta a Bahia.

A permanência da obra de Jorge Amado projeta-se também para além do campo literário. Seus romances transformaram-se em poderosos mediadores da imagem da Bahia no Brasil e no mundo, convertendo a ficção em experiência cultural e turística. Leitores de diferentes países percorrem ruas, mercados, praias, terreiros e cidades movidos pelo desejo de reencontrar os cenários da narrativa. Trata-se de um singular exemplo em que a literatura não apenas representa um território, mas contribui para sua valorização simbólica, sua preservação e o fortalecimento de sua economia criativa.

O turismo literário, nesse contexto, constitui uma forma de leitura do espaço, na qual memória, patrimônio e identidade se entrelaçam, reafirmando a cultura como um dos mais relevantes ativos do desenvolvimento regional. Assim, Jorge Amado, mais do que um grande romancista, afirma-se como um dos maiores embaixadores culturais da Bahia. Sua obra continua atraindo leitores, pesquisadores e visitantes de diferentes partes do mundo, fortalecendo a imagem da Bahia e, particularmente, da Região Grapiúna como território da cultura, da memória e do turismo literário.

Celebrar seus 114 anos é reconhecer que sua literatura permanece viva, renovando, a cada leitura, o diálogo entre o local e o universal e reafirmando que a identidade de um povo também se escreve pela força de suas narrativas.


Por Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões), membro da cadeira 19, Academia de Letras de Ilhéus.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PROSA DAS LETRAS ESTREIA HOJE, 7 DE AGOSTO, COM UMA HOMENAGEM AO SAUDOSO CONFRADE JOSEVANDRO NASCIMENTO




Dar voz e conhecer mais profundamente as diversas academias de letras existentes em municípios baianos. Estes são os principais objetivos do Prosa das Letras, um programa realizado pela Academia de Letras da Bahia (ALB) em parceria com a TV ALBA. A apresentação é do escritor Aleilton Fonseca, atual presidente da ALB. Durante 30 minutos ele irá conversar com presidentes de Academias de Letras de diversos municípios baianos para um diálogo sobre sua instituição.

A estreia é na próxima sexta-feira, 7 de agosto, às 18h30 no Youtube da TV ALBA. Dividido em dois blocos, cada programa vai mostrar as origens, a trajetória, as atividades, desafios, projetos e conquistas de cada instituição. “Vai ser uma prosa também sobre as contribuições de cada Academia para a valorização da literatura, da cultura e da memória de seus municípios”, explica Aleilton Fonseca.

Neste primeiro programa o entrevistado é o saudoso Josevandro Nascimento, ex-presidente da Academia de Letras de Ilhéus (ALI). Professor, advogado e escritor, ele faleceu no dia 4 de julho de 2026 e a participação no Prosa das Letras foi uma de suas últimas entrevistas como presidente da ALI.

“Vai ser uma homenagem da ALB a este intelectual que dedicou sua vida à promoção da educação e da literatura”, afirma Aleilton Fonseca. O Programa também vai falar de acadêmicos como Adonias Filho e Telmo Padilha. E, como não poderia deixar de ser, resgatar histórias de Jorge Amado e Zélia Gattai em Ilhéus.

O Prosa das Letras será exibido quinzenalmente, às sextas-feiras, às 18h30, pelo YouTube da TV ALBA (@tvalba). Mas quem quiser também pode acompanhar pela TV aberta: Salvador e Região Metropolitana: Canal 12.2; em Barreiras: Canal 40.2; e demais cidades do interior da Bahia: Canais 9.2 e 10.2.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Terra, o Homem e a Urgência da Justiça Social: O Legado de Raymundo Laranjeira em Memorial de Direito Agrário

 


Em um país cuja história econômica, social e política está profundamente enraizada na terra, debater o meio rural e as relações que o permeiam não é apenas uma questão acadêmica; é uma urgência estrutural. É com esse senso de urgência e perenidade que o jurista, ex-juiz e professor Raymundo Laranjeira, membro da cadeira nº 25, da Academia de Letras de Ilhéus, lança sua mais recente obra, Memorial de Direito Agrário (Via Litterarum Editora, 2026).

O livro sintetiza meio século — cinquenta anos — de contínua e rigorosa investigação sobre a realidade do campo brasileiro. Ao longo de décadas de dedicação à docência, à magistratura trabalhista e aos tribunais — trajetória que o consagrou como Desembargador aposentado e referência internacional na matéria —, Laranjeira construiu um apanhado denso de textos que examinam a evolução da legislação agrária e trabalhista.

O Foco no Humano: O Verdadeiro Sentido da Luta pela Terra

Mais do que uma análise fria de dispositivos legais e normas que se modificaram ou se extinguiram ao longo do tempo, o Memorial coloca no centro do debate a figura humana. A obra direciona seu olhar urgente para três personagens fundamentais que moldam o cenário rural brasileiro:

O empreendedor econômico sobre a terra;
O trabalhador que labuta nela para garantir a sobrevivência de sua família;
O trabalhador que vende sua força de trabalho por não possuir os próprios meios de produção.

Esses seres formam um panorama social dramático em territórios historicamente marcados pela injusta distribuição da propriedade no país — uma ferida aberta que continua a exigir respostas jurídicas e políticas firmes.

Uma Contribuição Imprescindível para o Direito Nacional

A publicação revela vertentes econômicas, sociais e jurídicas profundas do campo, capturadas em diferentes épocas. Em tempos de crescentes conflitos agrários, debates sobre sustentabilidade, segurança alimentar e a dignidade do trabalhador rural, a obra de Raymundo Laranjeira ergue-se como um farol teórico e prático.

Mais do que uma contribuição à História do Direito nacional, Memorial de Direito Agrário é um chamado à reflexão sobre a urgência de repormos a justiça social e a equidade no centro do desenvolvimento do Brasil.

Quem é Raymundo Laranjeira 

O confrade Raymundo Laranjeira, do ponto de vista profissional e acadêmico, tem dupla atuação: a de jurista laboral e a de jus-agrarista. Depois de ter iniciado a sua carreira no Ministério Público da Bahia, ingressou na Justiça do Trabalho, tendo sido juiz de 1a instância, a maior parte do seu tempo em Ilhéus-BA, e de 2a instância, tanto no Tribunal Regional do Trabalho da 5a. Região, por convocação, em Salvador, quanto no Tribunal Regional do Trabalho da 20a Região, que ajudou a instalar em Sergipe, em 1992, para em seguida aposentar-se como Desembargador, com 35 anos de serviço público.

Além de dezenas de artigos e ensaios veiculados em jornais, revistas especializadas e obras coletivas, publicou os seguintes livros: Propedêutica do Direito Agrário (LTr Editora, São Paulo, 1975 e 1981, 2a ed.), Colonização e Reforma Agrária no Brasil (Ed. Civiização Brasileira, Rio, 1983), Direito Agrário (LTr Editora, São Paulo, 1984), Direito Agrário Brasileiro (Org. LTr Editora, São Paulo, 2000), O Negro e a Terra no Brasil (LTr Editora, São Paulo, 2018).

O que? Livro Memorial do Direito Agrário
Autor? Raymundo Laranjeira
Editora? Editora Via Litterarum, 2026.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

ARTIGO






ILHÉUS  500 ANOS - um chamado à reflexão sobre 
a identidade brasileira
Efson Lima

A Capitania de São Jorge dos Ilhéus se aproxima dos 500 anos e, com a chegada desse marco, diversas são as reflexões que se impõem aos ilheenses, baianos e brasileiros. No último dia 28 de junho se comemorou os 492 anos da Capitania – que, de tão extensa, incluía a região onde está hoje Brasília - e os 145 da posterior elevação à categoria de cidade. Assim sendo, o marco comemorativo do quincentenário da cidade-mãe, Ilhéus, irradia por todo o País e a necessidade de pensarmos sobre a identidade do povo brasileiro, bem como o desenvolvimento que devemos perseguir, se coloca a todas as pessoas. Inclusive, com o dever de refletir sobre (e com) os povos originários, que habitavam o vasto território, bem como os povos africanos abduzidos de suas terras e escravizados nessas.

Não podemos discorrer sobre lutas abolicionistas sem considerar os enfrentamentos de Gregório Luís, no Rio do Engenho, em face das condições impostas aos escravizados. Entre as capitanias de Porto Seguro e Bahia, a Capitania de Ilhéus foi uma das mais prósperas no período colonial. E no séc. XX, já ostentando a condição de cidade, cumpriu importante função com sua localização geográfica, presença do porto exportador e pujante produção de cacau, contribuindo significativamente para a arrecadação de ICMS e com os projetos estruturantes do estado.

A Academia de Letras de Ilhéus instituiu Comissão com objetivo de traçar estratégias para as celebrações dos 500 anos, sob a liderança do professor e acadêmico Ramayana Vargens, que tem sensibilizado as diversas organizações quanto à importância desse marco em razão do “signo Ilhéus” ultrapassar as fronteiras da região. O imortal é uma autoridade no assunto e integrou a equipe responsável pelas comemorações dos 500 anos do Brasil. A título de sugestão, a cidade de Ilhéus merece ter uma Comissão instituída por meio do Executivo Municipal, quiçá, via lei, para destravar os preparativos e pensar ações concretas que integrem o quincentenário, passando pelos 150 anos de elevação à categoria de cidade. O Centenário da cidade, em 1981, foi marcado por um conjunto de entregas à população.

As celebrações dos 500 anos do Brasil tiveram liderança firme da UESC, a partir da então reitora Renée Albagli. Agora, o sul da Bahia possui a UFSB, que muito pode colaborar nesse processo. É indispensável a colaboração da sociedade civil, do segmento produtivo e de outros atores e organizações. Ilhéus recebeu de presente e com alegria, no seu aniversário último, a reabertura da Casa de Cultura Jorge Amado, que se aproxima dos 30 anos. Mas a cidade merece muito mais, e todos devem buscar esse “mais”, porque as celebrações interessam, no mínimo, a todo brasileiro.




Efson Lima

Professor de Direito Internacional da Universidade 
da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. 
Membro das Academias de Letras de Ilhéus e 
da Grapiúna de Artes e Letras (Agral).
E-mail: efsonlima@gmail.com

segunda-feira, 6 de julho de 2026

NOSSA GRATIDÃO


Josevandro Nascimento 1952 — 2026


A Academia de Letras de Ilhéus agradece, com sincero reconhecimento, a todos os confrades, confreiras, familiares e amigos que estiveram presentes na despedida do nosso presidente, o professor Josevandro Raymundo Ferreira Nascimento.

Foi uma cerimônia marcada pela emoção, pela reverência e pela gratidão. Em nome da Academia, tive a honra de dirigir algumas palavras como presidente em exercício, seguidas pelas homenagens dos confrades José Nazal, Alessandro Fernandes, Antônio Hygino, Jane Hilda Badaró e da presidente da Academia Grapiúna de Letras e Artes (AGRAL), Josanne Moraes, que também prestou sua homenagem em nome de sua instituição.

Vivemos um dos momentos mais comoventes quando a pelerine acadêmica do professor Josevandro foi colocada sobre seu corpo, como um último abraço da Casa de Abel àquele que a conduziu com tanta dedicação e dignidade.

Ao final, os aplausos que ecoaram foram mais do que uma despedida. Foram um agradecimento por uma vida inteiramente dedicada à educação, ao Direito, à literatura e à cultura.

Nossa gratidão a todos os que puderam estar presentes, mesmo que por pouco tempo. Cada gesto de carinho, cada oração e cada abraço foram importantes para a família e para a Academia.

Aproveitamos também para fazer um convite. Se você escreveu um texto em homenagem ao professor Josevandro, seja para as redes sociais, para grupos de mensagens ou em qualquer outra ocasião, encaminhe-o à Academia de Letras de Ilhéus. Publicaremos essas homenagens em nosso blog e iniciaremos a organização desse precioso material, com o desejo de que ele se transforme, futuramente, em um livro de tributos à memória de nosso inesquecível presidente.

Porque as pessoas partem, mas as palavras permanecem. E é por meio delas que continuaremos honrando a vida e o legado do professor Josevandro.


Luh Oliveira
Presidente em Exercício

domingo, 5 de julho de 2026

SOBRE A PARTIDA DE ZEVANDRO





SOBRE A PARTIDA DE JOSEVANDRO NASCIMENTO

Pawlo Cidade*



Ao longo do lusco-fusco que foi o seu terceiro mandato, caminhei ao lado de Josevandro Nascimento — o nosso Zevandro, como a afetuosa intimidade das letras exigia — na grave condição de seu conselheiro. Não o fiz porque ele vacilasse diante dos novos tempos que batiam à porta da presidência da ALI, tampouco porque ele fizesse de minhas palavras um dogma. Era algo maior, mais nobre. A experiência, essa mestra severa, havia lhe sussurrado que o tempo dos soberanos solitários havia ruído no passado remoto. Ele compreendeu que governar é conjugar no plural. O lema que ecoava em seus passos era a coletividade, a horizontalidade dos iguais. Nenhuma decisão era tomada no isolamento de sua mesa; cada passo era partilhado com a diretoria, decidido sob o manto sagrado da confraria. E foi sob essa sinfonia de vozes, ouvindo o sopro e o clamor de tudo e de todos, que ele regeu a segunda academia mais antiga da Bahia.

Nas tardes que a memória agora insiste em eternizar, eu, ele e o saudoso André Rosa costumávamos desafiar a própria finitude com o riso. “Eu não quero furar a fila”, dizia Zevandro, com um sorriso que desafiava o destino. “Muito menos eu”, retorquia André, e nossas gargalhadas ecoavam, adiando o inevitável. Mal sabíamos que aquela ironia trágica, nascida das palavras do querido confrade Dorival de Freitas — que na partida de Ton Lavigne alertara que, de vez em quando, alguém rompe a ordem natural da travessia —, se tornaria nossa própria sentença. André, com uma pressa incompreensível, furou a fila. E agora, você, Zevandro, repete o mesmo gesto abrupto. Para que tamanha urgência em ascender ao plano invisível? Vocês nos desarmaram, roubando-nos o chão sem aviso prévio.

Hoje, curva-se a minha alma diante da certeza de que os mais grandiosos planos e gestões humanas desmoronam diante do imponderável. Tolos somos nós, que tantas vezes nos apegamos às vaidades terrenas, às engrenagens estéreis e aos métodos frios, esquecendo-nos de que somos apenas passageiros sem saber em qual curva o bilhete nos será exigido. Tentamos barganhar com as horas, implorar por mais um sopro de tempo, mas quando o chamado final ecoa, o abismo não aceita adiamentos.

Vá em paz, meu eterno presidente. A sua última e mais silenciosa assembleia agora é com a eternidade.

* Ex-presidente da ALI, membro efetivo da cadeira nº 13.

TRIBUTO À JOSEVANDRO

 



Itabuna, 5 de junho de 2026.


Ilustres confrades,
Ilustres confreiras.
(Amigos meus, amigas minhas).


Antes, aquele dia de ontem não tivesse amanhecido. Se ele, no entanto, foi forçado a amanhecer, enfrentemos, de pé como árvores, a tristeza com que ele nos rebuçou.

Sei, muito bem, de meu dever e obrigação: estar aí, reunido a vocês, numa última e justa homenagem a nosso Josevandro, nosso Presidente. Aprendi, no entanto, com meus mais velhos: A vontade mora no peito de quem não pode, pois quem pode mata a vontade.

A que me refiro? A uma ingrata e dolorosa impossibilidade de participar, em conjunto, numa irmanação de sentimentos, a homenagem tão merecida ao nosso querido Presidente. Não é momento para queixumes, mas as justificativas de minha ausência se fazem necessárias, se é que justificativa alguma preencha a lacuna deixada pela ausência.

Como eu gostaria de estar presente nas cerimônias que serão realizadas na Maçonaria, durante o velório e, depois, no sepultamento. Merecedor de nossos tributos, nosso Presidente sempre zelou pelo sucesso e bom desenvolvimento de nossa Academia. Dele, sempre recebi tratamento especial e cerimonioso e fazia questão de anunciar, em alto e bom tom, em qualquer momento das cerimônias nossas na Academia: “Nosso pai, professor e babalorixá, Ruy Póvoas.” A voz era firme e plena de reconhecimento pelo papel que exerço na sociedade de nosso tempo. 

Sua atitude, ao assim proceder, significava injeção de ânimo e, mais além, que tenho acertado em minhas ações e, principalmente, na relação com demais confrades e confreiras,

Agora, aquela voz se cala, mas não há de se esvair a lembrança, a saudade, a memória que foi construída em ações constantes, por pessoa tão digna de nosso apreço e consideração.

Vá em paz, amigo, confrade, Presidente. Fica conosco a sofrida tarefa de chorarmos sua ausência. Fica, porém, o produto de sua luta que não visava lucro, nem fama. Apenas fazia porque queria fazer, sentindo e agindo com seriedade, respeito e dignidade.

As bênçãos divinas recaiam sobre você e a nós não desamparem porque vamos em frente para realizar, todos e todas mais unidos ainda, seus ideais para grandeza de nossa Academia.

E logo que você sempre me tratou por “meu pai”, me pedindo a bênção, receba deste seu velho e já um tanto cansado pai, minha bênção, até quando minha tarefa também terminar.


Ruy Póvoas
Titular da Cadeira de 18 da ALI

sábado, 4 de julho de 2026

NOTA DE PESAR PELO PASSAGEM DE NOSSO PRESIDENTE


A Academia de Letras de Ilhéus (ALI) cumpre o doloroso dever de comunicar o falecimento de seu estimado presidente, o Professor Josevandro Raymundo Ferreira Nascimento, ocorrido neste sábado. Ocupante imortal da Cadeira nº 14, sua partida deixa um vazio imensurável na cultura e na intelectualidade do Sul da Bahia.

Mais do que um guardião das nossas tradições literárias, o Professor Josevandro foi um líder visionário. À frente da presidência da instituição por dois mandatos marcantes, ele não poupou esforços para modernizar e dinamizar a centenária Casa de Abel, aproximando a Academia da comunidade e garantindo que o sodalício permanecesse como um farol pulsante de resistência cultural.

Sob a sua firme e generosa condução, a ALI fortaleceu seus laços com a sociedade regional, promoveu o debate intelectual e incentivou ativamente o surgimento de novos talentos nas letras sul-baianas. O dinamismo com que liderou os trabalhos acadêmicos uniu gerações de escritores, sempre pautado pelo mais profundo respeito à memória literária de Ilhéus e pelo compromisso com o futuro da nossa cultura.

Seu trabalho incansável na gestão cultural e na defesa do patrimônio imaterial da região confunde-se com a própria história recente da Academia. Josevandro Nascimento deixa como herança o exemplo de um homem público que usou o conhecimento e a palavra para edificar e acolher.

Neste momento de imensa tristeza e saudade, manifestamos nossa profunda solidariedade à sua esposa, familiares, amigos, ex-alunos e aos confrades e confreiras que compartilharam de sua iluminada convivência. Que o brilho de seu espírito público e sua dedicação às letras continuem a guiar e inspirar os caminhos desta Casa.

Academia de Letras de Ilhéus

Atenção!

O corpo do Prof. Dr. Josevandro Ferreira Nascimento será velado no Salão Nobre da Loja Maçônica Vigilância e Resistência, localizado na Avenida Itabuna, a partir das 6h da manhã deste domingo, 5 de julho. O sepultamento será realizado às 13h, no Cemitério da Vitória.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

ARTIGO


A força de uma tradição, em afirmação de identidade.

Tica Simões(1)



Ruy Póvoas, o babalorixá Katulembá, à esquerda.



A Academia de Letras de Ilhéus, em momento bem especial, oportunizou a apresentação do Documentário Òfú Ifaradá: o Sopro da Resistência (2), que tive o grande prazer de assistir, em 6 de maio de 2026.

Realizado em comemoração do cinquentenário do terreiro Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon, situado em Itabuna, é uma obra cinematográfica emocionante, que registra história e afirma cultura. Rico em significações, do meu olhar, que sou de “fora da porteira”, oportuniza várias camadas de leitura.

Impõe a ideia de estética da resistência, expressão que já vem sendo enfatizada por artistas e culturalistas, em valorização de expressões historicamente marginalizadas. Nessa direção, Òfú Ifaradá... demonstra resistência quando recusa padrões eurocêntricos de narrativa e imagem; valoriza o tempo do ritual (mais lento, circular, não linear); colocao corpo negro e sagrado como centro, não como objeto. Então, aí, vê-se que cultura é prática, produção de sentido epoder. Ou seja, a estética não separa forma e conteúdo

— a própria forma é resistência; e, claro, posicionamento político.

Nas várias cenas apresentadas, percebe-se o reconhecimento de saberes que foram historicamente desvalorizados pelopensamento ocidental dominante, quando legitima saberes do terreiro como conhecimento (e não “crença inferior”); valoriza a oralidade, a ancestralidade e a experiência; mostra que há outras formas de compreender o mundo além daciência ocidental. Nesse sentido, o documentário não apenas representa uma cultura — ele reivindica um modo de conhecer.

Os elementos-chave da produção – entrevistas, imagens de arquivos, narração – exploram o tema com profundidade, leveza e beleza de cenas e cores. O sagrado não é traduzido de forma didática; é, também, experiência sensível, estética;não aparece como conceito, mas como presença. O telurismo se faz forte através dos elementos água, ar, fogo e terra. Oinvisível se manifesta através do ritmo (tempo ritual); do corpo (transe, dança, gesto); do som (cantos, tambores). Acena inicial da escolha das cabeças induz a dialogar com a ideia do destino, da identidade e da consciência; ou seja:essência, caminho, individualidade da pessoa; simboliza fortemente a construção do destino e da identidade espiritual de cada ser; criado do barro, representa a matéria primordial: a terra viva, úmida, moldável, de onde nasce a vida. Depois, o final provoca a reflexão de que o barro representa a origem, a ancestralidade, a matéria da vida, aquilo que vem da terra; é o ser humano pronto, andando... é o sopro da vida, o nascimento da consciência e da trajetória humana no mundo; deixa a sensação de que aquele corpo moldado ganha movimento, história, memória e missão. Ele deixa de ser apenas matéria e passa a ser existência; traz a sensação - simbólica, espiritual e cultural – da força da criação. Dessa forma, misturando arte e sagrado, o desfecho desse belo trabalho documental provoca reflexão sobre a existência; o mito da criação e o sagrado.

Assim, numa perspectiva poética e política, fala de um povo que saiu do barro, da dor, da escravidão e da invisibilidade,mas continua caminhando, resistindo e criando cultura. O “sopro” que integra o título reforça justamente essa sensação de vida, permanência e resistência ancestral. Então, a obra cria uma experiência sensível. O espectador não “entende” racionalmente — ele é convidado a sentir.

A Identidade baiana é tratada como síntese viva. A Bahia, nesse contexto, não é só um lugar geográfico — é umterritório simbólico onde África e Brasil se encontram; passado e presente convivem; resistência e criação caminhamjuntas. E podemos lembrar Milton Santos: o território é feito de vida, relações e significados, não apenas de espaço físico.

Ao atuar como um arquivo vivo de memória, ancestralidade e resistência do povo Ijexá, esse documentário é mesmo um marco na produção cultural sul baiana. Através de estéticas e narrativas próprias, reconhece saberes, ao legitimar epistemologias não hegemônicas; encarna o sagrado, ao transformar arte em experiência sensível; afirma identidade, ao apresentar a Bahia como espaço de memória e reinvenção. Transmite ao espectador sentimento de pertencimento.

Parabéns a Ruy Póvoas, o babalorixá Katulembá que, ao longo desses 50 anos, conduz o seu povo com sabedoria. Parabéns aos idealizadores e executores desse belo e significativo registro.

E o sopro permanece!



(1) Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões). Integra: Academia de Letras de Ilhéus, cadeira 19; Academia de Letras de Itabuna – ALITA, cadeira 31.

(2) Òfú Ifaradá: o Sopro da Resistência. Direção geral de Paulo Ferreira (Alaramó).
Produção da Associação Santa Cruz do Ijexá – ASSANCRI, 2025.