A força de uma tradição, em afirmação de identidade.
Tica Simões(1)
Ruy Póvoas, o babalorixá Katulembá, à esquerda.
A Academia de Letras de Ilhéus, em momento bem especial, oportunizou a apresentação do Documentário Òfú Ifaradá: o Sopro da Resistência (2), que tive o grande prazer de assistir, em 6 de maio de 2026.
Realizado em comemoração do cinquentenário do terreiro Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon, situado em Itabuna, é uma obra cinematográfica emocionante, que registra história e afirma cultura. Rico em significações, do meu olhar, que sou de “fora da porteira”, oportuniza várias camadas de leitura.
Impõe a ideia de estética da resistência, expressão que já vem sendo enfatizada por artistas e culturalistas, em valorização de expressões historicamente marginalizadas. Nessa direção, Òfú Ifaradá... demonstra resistência quando recusa padrões eurocêntricos de narrativa e imagem; valoriza o tempo do ritual (mais lento, circular, não linear); colocao corpo negro e sagrado como centro, não como objeto. Então, aí, vê-se que cultura é prática, produção de sentido epoder. Ou seja, a estética não separa forma e conteúdo
— a própria forma é resistência; e, claro, posicionamento político.
Nas várias cenas apresentadas, percebe-se o reconhecimento de saberes que foram historicamente desvalorizados pelopensamento ocidental dominante, quando legitima saberes do terreiro como conhecimento (e não “crença inferior”); valoriza a oralidade, a ancestralidade e a experiência; mostra que há outras formas de compreender o mundo além daciência ocidental. Nesse sentido, o documentário não apenas representa uma cultura — ele reivindica um modo de conhecer.
Os elementos-chave da produção – entrevistas, imagens de arquivos, narração – exploram o tema com profundidade, leveza e beleza de cenas e cores. O sagrado não é traduzido de forma didática; é, também, experiência sensível, estética;não aparece como conceito, mas como presença. O telurismo se faz forte através dos elementos água, ar, fogo e terra. Oinvisível se manifesta através do ritmo (tempo ritual); do corpo (transe, dança, gesto); do som (cantos, tambores). Acena inicial da escolha das cabeças induz a dialogar com a ideia do destino, da identidade e da consciência; ou seja:essência, caminho, individualidade da pessoa; simboliza fortemente a construção do destino e da identidade espiritual de cada ser; criado do barro, representa a matéria primordial: a terra viva, úmida, moldável, de onde nasce a vida. Depois, o final provoca a reflexão de que o barro representa a origem, a ancestralidade, a matéria da vida, aquilo que vem da terra; é o ser humano pronto, andando... é o sopro da vida, o nascimento da consciência e da trajetória humana no mundo; deixa a sensação de que aquele corpo moldado ganha movimento, história, memória e missão. Ele deixa de ser apenas matéria e passa a ser existência; traz a sensação - simbólica, espiritual e cultural – da força da criação. Dessa forma, misturando arte e sagrado, o desfecho desse belo trabalho documental provoca reflexão sobre a existência; o mito da criação e o sagrado.
Assim, numa perspectiva poética e política, fala de um povo que saiu do barro, da dor, da escravidão e da invisibilidade,mas continua caminhando, resistindo e criando cultura. O “sopro” que integra o título reforça justamente essa sensação de vida, permanência e resistência ancestral. Então, a obra cria uma experiência sensível. O espectador não “entende” racionalmente — ele é convidado a sentir.
A Identidade baiana é tratada como síntese viva. A Bahia, nesse contexto, não é só um lugar geográfico — é umterritório simbólico onde África e Brasil se encontram; passado e presente convivem; resistência e criação caminhamjuntas. E podemos lembrar Milton Santos: o território é feito de vida, relações e significados, não apenas de espaço físico.
Ao atuar como um arquivo vivo de memória, ancestralidade e resistência do povo Ijexá, esse documentário é mesmo um marco na produção cultural sul baiana. Através de estéticas e narrativas próprias, reconhece saberes, ao legitimar epistemologias não hegemônicas; encarna o sagrado, ao transformar arte em experiência sensível; afirma identidade, ao apresentar a Bahia como espaço de memória e reinvenção. Transmite ao espectador sentimento de pertencimento.
Parabéns a Ruy Póvoas, o babalorixá Katulembá que, ao longo desses 50 anos, conduz o seu povo com sabedoria. Parabéns aos idealizadores e executores desse belo e significativo registro.
E o sopro permanece!
(1) Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões). Integra: Academia de Letras de Ilhéus, cadeira 19; Academia de Letras de Itabuna – ALITA, cadeira 31.
(2) Òfú Ifaradá: o Sopro da Resistência. Direção geral de Paulo Ferreira (Alaramó).
Produção da Associação Santa Cruz do Ijexá – ASSANCRI, 2025.

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