segunda-feira, 28 de março de 2022

RECIPIENDÁRIO


Professor Edvaldo Brito, membro da cadeira nº 28
Foto: José Nazal/Edição ALI
 

DISCURSO DE RECEPÇÃO A MANOEL CARLOS DE ALMEIDA NETO NA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS, 25 DE MARÇO DE 2022.


Edvaldo Brito 

Titular da Cadeira 28

Patrono: Junqueira Freire

Fundador: Orlando Gomes




Confreiras e confrades




A professora primária é a primeira enciclopédia do ser humano. Atua, em colaboração com a mãe, cevando o instinto gregário, peculiaridade bio-psicológica que, de modo inconsciente, move a espécie ao associativismo.

Louvores a d. Estefânia, a d. Zezinha e a d. Nair — minhas professoras primárias — que ajudaram a d. Edite na formação deste seu filho.

A creche e a pré-escola são as primeiras manifestações da vida do homem em rebanho, como os pássaros, no dizer de Martins Fontes em seu “Terras da Fantasia”.

Adolescente, adulto, acentua-se esse comportamento gregário, na busca da satisfação de necessidades sociais, seja, por exemplo, através da prática religiosa; seja, da prática mundana, isto é, do lado material e transitório da convivência. 

Explica-se, assim, o surgimento da escola criada por Platão, no bosque sagrado de oliveiras dedicado a Atena, a deusa grega da sabedoria, protetora das artes, das invenções, da bravura e da eloquência. 

Situava-se, esse aglomerado de árvores, fora das muralhas da cidade de Atenas, em local denominado Academia, em homenagem ao herói ateniense, Academo.

O tempo, aqui, é o de 384 ou 383 a.C. e a entidade platônica tinha características de associação religiosa consagrada ao culto das Musas de Apolo.

Dentre os membros notáveis, estava Aristóteles.

Mas, autoritário, o imperador Justiniano, que combateu e perseguiu judeus, pagãos e heréticos, intervindo, também, em todos os negócios da Igreja, a fim de controlá-la e tê-la como sustentáculo do seu Império, fechou a Academia de Platão, no ano 529 d.C., considerada como o último baluarte do paganismo, uma vez que Justiniano proibiu, à época, todas as escolas filosóficas, em razão de entendê-las com características pagãs, contrárias, assim, aos preceitos da fé cristã, já, então, dominante.

A ideia de Academia, contudo, continuou forjada nesse instinto gregário, como dá o exemplo a academia neoplatônica renovada no sec. VI.

Chegados ao sec. XVII, encontra-se o marco que inspira as associações dessa natureza: trata-se da Académie Française, fundada em 1635, em Paris, por Armand Jean du Plessis, o Cardeal de Richelieu, Duque de Richelieu e de Fronsac, nascido em Paris a 9 de setembro de 1585 e falecido em 4 de dezembro de 1642, o famoso primeiro ministro do rei Luís XIII.

O lema da Academie Française era o de ser a autoridade, no país, para regulamentar o uso, vocabulário e gramática do idioma francês, cumprindo-lhe publicar o dicionário oficial, conhecido como “Dictionnaire de l’Académie Française”, obra da autoria de vários acadêmicos.

A Academia Francesa é o protótipo das subsequentes e a Bahia, no Brasil, tem o pioneirismo com a Academia Brasílica dos Esquecidos, fundada em 1724, em Salvador, com uma pequena duração de um ano. 

Reaparece, contudo, em 06 de junho de 1759, na entidade literária chamada Academia Brasílica dos Renascidos. 

Todas duas são o embrião da centenária Academia de Letras da Bahia, nascida em 7 de março de 1917, pelas mãos de Arlindo Fragoso, congregando, dentre outros, Ruy Barbosa e cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura nacionais, a preservação da memória cultural bahiana e o amparo e estímulo ás manifestações da mesma natureza, incluídas as áreas da ciência e das artes.

Ilhéus puxa o cordão das muitas academias existentes, hoje, no interior do Estado, com esta nossa valorosa instituição, já, de 63 anos de idade, fruto da sadia memória dos seus pioneiros, no ato de 14 de março de 1959.

Dentre esses precursores, destaque-se a liderança de Francolino Neto, por cujas mãos, aqui, ingressei há 32 anos atrás, com a honra de ser recipiendário do ilustre acadêmico Jorge Calmon e de ter o testemunho da saudosa magistrada, a professora Sônia Maron.

Rendo-lhes a homenagem devida.

Afinal, somos imortais.

O fato de termos transposto os umbrais desta Casa, é o fundamento da sobrevivência, à nossa morte, indefinidamente, conservando-nos as características pelo cultivo de nossas qualidades, feito pelos pósteros.

Essa imortalidade decorre da inscrição “À l’immortalité” (para a imortalidade) constante no selo oficial da entidade de Richelieu, significando que se é membro de uma Academia por toda a existência material e imaterial.

É, assim, com José Cândido de Carvalho Filho, fundador dessa cadeira 39, ocupada, doravante, por vós, acadêmico Manoel Carlos de Almeida Neto, que homenageareis à memória ilustre desse político que se tornou um dos magistrados da melhor cepa, primeiro titular como juiz federal da seção judiciária do Estado da Bahia.

Convivemos nas duas situações: antes, ele como prócer da UDN, a União Democrática Nacional, partido político da resistência ao populismo de Vargas e de cuja ala juvenil, participei e, depois, eu, como procurador da Universidade Federal da Bahia, postulei perante S.Excia.

É, assim, com Orlando Gomes, fundador da cadeira 28, que ocupo. Será, pela sua memória, eternamente, lembrado, nesta Casa e, por mim, cultuada a sua personalidade imortal.

Enfim, é a imortalidade da alma.

Noite memorável, aquela do meu ingresso, aqui, quando se reuniram toda a minha família, os amigos ilheenses, os soteropolitanos, os itabunenses, dentre outros, para testemunharem a minha triunfal investidura nesta Casa. 

Esta Casa forma na vanguarda das demais 10 (dez) academias, das quais me honro em integrar, em Salvador, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Itabuna. Ela é a minha primeira de letras.

Uma Academia de Letras, atualmente, não é um local de culto, exclusivo, à literatura. 

É, sim, um lugar de cultivo das humanidades.

As pessoas de letras não são, especificamente, literatos. Estes são espécies daquelas.

Uma Academia de Letras contemporânea é ambiente de acolhida de personalidades que se destacam no meio social, nos seus respectivos setores de atuação, a exemplo de professores universitários, de profissionais liberais de reconhecida atuação comunitária, de homens públicos políticos, enfim, de tantos quantos, na coletividade, exerçam uma função social.

Podem todos esses se agregarem aos literatos para o concerto sobre os temas que, contemporaneamente, são objeto da vida de relação.

Tome-se o exemplo da recente pandemia do coronavirus. Esse agente infeccioso, responsável por uma doença respiratória, a covid-19, colocou a humanidade em tal estado de vulnerabilidade que lhe conscientizou da importância da solidariedade e da fraternidade.

Cada dia fez o brasileiro recordar que a pandemia da chamada gripe espanhola do ano de 1918 operou efeitos devastadores, também, nos laços ou nos vínculos recíprocos que se impõem, nessas horas, entre as pessoas independentes. 

Talvez, àquele tempo, esses efeitos fossem frutos da ignorância quanto aos elementos constitutivos de uma vida de relação.

O Brasil carecia, até, de uma legislação, que disciplinasse esses efeitos, a qual, felizmente, está adotada, a partir do Código Penal de 07 de dezembro de 1940 que cataloga as condutas tipificadas como crimes contra a saúde pública, dentre eles o de epidemia que é uma forma pela qual se define uma doença infecciosa que acomete, a um tempo, grande número de pessoas, em um só país, tornando-se pandemia quando se propaga pela população de toda a Terra.

Vive-se, enfim, um Estado brasileiro Democrático de Direito que assegura, a partir de sua Constituição, a de uma República Federativa, o bem-estar social.

Felizmente — repita-se este advérbio — o país, na pluralidade, própria de um contingente humano, teve, durante esta pandemia do coronavirus, um inexpressivo negativismo, contra o qual prevaleceram a solidariedade e a fraternidadeessenciais à convivência, garantidas pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal que nos assegurou a forma federativa de Estado, na qual o poder não fica à mercê de um único titular, como nas ditaduras.

A fraternidade inspirou a Carta Encíclica Fratelli Tutti — dada em Assis, em 03 de outubro do ano de 2020, data do meu aniversário e oitavo ano do pontificado de Sua Santidade — com a qual o Santo Padre Francisco concita, não só os cristãos, seus fiéis, mas, toda a humanidade a vivermos os conselhos de São Francisco de Assis, constitutivos de um “convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço”, porque feliz é quem ama o outro, o seu irmão, considerando que “o essencial de uma fraternidade aberta” é “reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita”

Pois bem: as Academias são, hoje, úteis organizações sociais para o concerto desses temas, em sua ambiência, rompendo com as práticas tradicionais dos saraus, nos quais se transformavam suas reuniões vespertinas. 

Passaram a adotar uma integração não só com as manifestações da sociedade em geral, mas, também, a integração de gerações demonstrada, agora, aqui, com a eleição de dois ex-alunos meus: vós, sr. Manoel Carlos e o sr. Efson Batista Lima que cursou, em 2013, a pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

Vós, sr. Manoel Carlos, tendes o dever de, aqui, seguirdes a tradição do vosso avô, Manoel Carlos Amorim de Almeida, que foi titular da Cadeira 33.

Tendes, outrossim, o dever de emprestar a esta Academia o brilho de vossa atestada atuação em tantos setores da vida social dos quais tendes participado. 

Competente, como o conheço, declaro a transversalidade de nossas vidas:

Assisti a vossa proveitosa passagem, como aluno da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Líder estudantil, fostes capaz de promover eventos acadêmicos culturais, os mais destacados, prestigiados por ministros de Tribunais Superiores, a exemplo do meu pranteado amigo, José Delgado, do Superior Tribunal de Justiça, meu confrade na Academia Brasileira de Direito Tributário e a exemplo do eminente Enrique Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, o qual se encantou, naquele momento, com o vosso desempenho convidando-o para a atuação brilhante que tivestes como gestor da nossa Suprema Corte de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral.

Assim, começastes a brilhar, em Brasília, até hoje.

A transversalidade de nossas vidas é histórica: 

Paraninfei a solenidade de entrega de um troféu de honra ao mérito que lhe outorgou, em Brasília, no ano de 2010, a Revista Justiça & Cidadania. Vosso convite para que eu tivesse a satisfação de ser vosso padrinho, naquela solenidade, demonstra o seu caráter de gratidão.

Vós, sr. Manoel Carlos, professor desde 2005 na UESC, provastes, ali, a vossa vocação para o magistério, como o demonstrastes, recentemente, escolhido, que fostes, pelo sistema do mérito, para ministrar aulas nas salas das Arcadas do Largo de São Francisco, em São Paulo, cuja frequência é um privilégio, por isso, ao alcance de poucos iluminados, como vós.

Escrevestes textos profundos, examinando um objeto cultural dos mais significativos, o Direito, fazendo-o com o rigor de cientista.

Essa é outra oportunidade da nossa transversalidade de vida: prefaciei, em 2010, o vosso livro “O novo controle de constitucionalidade municipal”, tema escasso na literatura jurídica, mas, abordado por vós, com a acuidade que o ministro Cunha Peixoto, do Supremo Tribunal Federal, pela qual ele tanto esperou e que, afinal, o ministro Gilmar Mendes equacionou, a ponto de esse vosso livro ser pioneiro na racionalização do assunto, típico do silêncio eloquente, tema tão bem estudado pelos autores alemães.

Não satisfeito, trazeis, agora, para integrar as letras jurídicas, uma historiografia das Constituições brasileiras, resultado de uma pesquisa digna de aplausos, no vosso recente livro “O colapso das Constituições do Brasil: uma reflexão pela democracia”, lançado, nacionalmente, em Brasília, durante a solenidade de instalação da importante Comissão de Estudos Constitucionais da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, em concorrida tarde de autógrafos, que presenciei — na transversalidade de nossas vidas — no momento em que fostes eleito o vice-presidente, daquele destacado órgão fracionário da OAB.

Será uma grande satisfação integrar, sob o vosso comando, aquele grupo, constituído por expressivos juristas nacionais — à minha exceção — os quais compõem, essa Comissão, mantendo-me, assim, perto do vosso aconchego.

Esses vossos dois livros estão na Bibliografia do Plano de Curso da disciplina Jurisdição Constitucional do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, de que sou professor há 40 anos, ininterruptos, completados em 11 de março de 2022 e do qual fostes aluno e meu orientando na elaboração de vossa Dissertação. 

É um dos melhores atestados de vossa brilhante trajetória universitária, o de participardes a lista dos mais destacados nomes de cultores da Ciência do Direito, no ambiente em que fostes aluno e no qual se situa mais um episódio da transversalidade de vidas, de que aqui se fala.

Os discursos de ingresso em Academias remontam aos idos de 1640, quando o advogado e escritor francês, Oliver Patru, foi recebido na Academia Francesa. Ele marcou, com isso, a história dessas solenidades e, assim, deixa confortáveis, nesta noite, a nós dois, que somos advogados e cultores das letras jurídicas.

Sois vós o segundo advogado que eu, também, como advogado, sou incumbido de dar as boas-vindas à Casa.

O primeiro, é o eminente confrade Luiz Pedreira Fernandes, desembargador do nosso Tribunal de Justiça da Bahia, que, aqui, ocupa a Cadeira 09, cujo Patrono é Bernardino de Souza, jurista e professor, a quem a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia deve a construção do seu imponente prédio, sua segunda sede, na rua Teixeira de Freitas, em Salvador e da qual Cadeira é fundador Adonias Filho, que foi, também, presidente desta Academia.

As Academias deste nosso novo tempo continuam sendo o melhor exercício do instinto gregário e se atualizam diante dos fatos que estão a proscrever o repúdio aos galicismos que resistiram e passaram a integrar o nosso idioma, a exemplo de feitiche, em lugar de feitiço; ter lugar, em vez de realizar-se; etc. e aos anglicismos, pois, hoje, estão incorporadas, ao nosso uso vocabulário, inimaginável outrora, palavras como YouTube, Instagram, WhatsApp, Facebook, Facetime, E-mail, E-social, live, on-line, etc.

O grupo de WhatsApp da Academia de Letras de Ilhéus é a prova da contemporaneidade da Casa.

Registre-se, aqui, que é uma Casa de diálogo e não de debates, eis que nosso confrade presidente, Pawlo Cidade, nome que pronuncio com o respeito merecido, concilia com o tempo presente a participação das confreiras e confrades, respondendo as indagações: 

— A solenidade será presencial ou on-line?

E ele:

— Presencial. Mas, vou tentar transmitir pelo meu perfil”.

O que é perfil?

Todos entendemos a mensagem, sem sabermos, propriamente, o que é perfil.

Caros confreiras e confrades, é este o ambiente contemporâneo de convivência em que o novo membro desta Academia, nela ingressa, ao qual vós escolhestes em significativa eleição e de que me fizestes vosso porta-voz das boas vindas para que ele participe desse novo tempo deste sodalício.

Permiti-me, vós, então, no desempenho deste mandato, que eu diga, em nome de todos vós, a Manoel Carlos de Almeida Neto:

Entrai nesta Casa, sentai-vos na Cadeira 39, ocupada pelo seu fundador, o saudoso José Cândido de Carvalho Filho. 

Temos todos a certeza de que a honrareis, como ele o fez.

Sede bem-vindo.

domingo, 27 de março de 2022

REGISTRO DOS MOMENTOS DA POSSE DE MANOEL CARLOS DE ALMEIDA NETO, AGORA OCUPANTE DA CADEIRA Nº 39, com texto do confrade Antônio Lopes e fotos de José Nazal


Manoel Carlos de Almeida Neto ocupa agora a cadeira nº 39


O jurista Manoel Carlos de Almeida Neto tomou posse na Academia de Letras de Ilhéus na sexta-feira, 25 de março. Ele passa a ocupar a Cadeira 39, cujo fundador foi o também jurista José Cândido de Carvalho Filho – cearense de Boa Viagem que fez carreira na política e na magistratura da Bahia – falecido em abril de 2019.

Na saudação protocolar, o acadêmico Edvaldo Brito, ex-professor de Direito de Manoel Carlos, fez breve histórico das academias de letras, que têm por modelo a “Académie Française”, criada em 1635 por Armand-Jean Du Plessis, o folclórico cardeal de Richelieu, apontando mudanças que ocorreram nesses mais de quatro séculos. “As academias hoje não são apenas espaços ocupados por literatos, mas o lugar de variadas manifestações artísticas e culturais”, disse o mestre baiano. O professor Edvaldo Brito também destacou a necessidade, nestes novos tempos, de que as academias participem mais da vida brasileira e – em gestos largos de reconhecido orador condoreiro – chamou a atenção para o grave momento vivido pelo Brasil, com a pandemia do coronavírus, quando houve esforço de grupos para negar a realidade trágica que tínhamos a enfrentar.

Constituições em colapso

Manoel Carlos de Almeida Neto, novo titular da Cadeira 39, é professor de Direito da USP, Doutor em Direito do Estado pela mesma Universidade (grau obtido summa cum laude), Mestre em Direito Público (pela UFBA e pela UnB), tendo prestado assessoria jurídica ao Supremo Tribunal Federal em diferentes épocas, particularmente ao ministro Ricardo Lewandowsky.

Pesquisador conceituado, publicou vários livros, dentre os quais Direito Eleitoral Regulador (Editora Revista dos Tribunais), O Novo Controle de Constitucionalidade Municipal” (Forense), Juiz Constitucional (Revista dos Tribunais), entre outros. Recentemente publicou, com grande repercussão no meio jurídico, O Colapso das Constituições do Brasil: uma reflexão pela democracia, trabalho que mostra as circunstâncias político-sociais em que nascem e morrem nossas Constituições.

Em seu discurso, o novel acadêmico destacou o perfil pessoal e profissional do seu antecessor, José Cândido de Carvalho Filho e do patrono da Cadeira 39, o político e jurista baiano José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu.




No sentido horário: Vercil Rodrigues, Antônio Lopes, Hygino Filho, André Rosa, Josevandro Nascimento, Gerson dos Anjos, Manoel Carlos Neto, Jane Hilda, Anarleide Menezes, Pawlo Cidade e Edvaldo Brito.
Foto: José Nazal



Entrada solene dos acadêmicos/Foto José Nazal





Mesa composta por Vercil Rodrigues (Academia de Letras Jurídicas), Renée Albagli (Magnífica Reitora por dois mandatos: 1996-2000; 2000-2004,  da UESC), Jane Hilda (Secretária Geral), Pawlo Cidade (Presidente da ALI), Tenente Paulo (18º CSM) e Jacson Cupertino (Presidente da OAB/Ilhéus). Foto: José Nazal 







Gerson dos Anjos, Manoel Carlos de Almeida Neto, André Rosa e Antônio Hygino Filho 
instantes antes da posse do confrade.



Momento do juramento do novo confrade/Foto José Nazal




Manoel Carlos recebe a pelerine das mãos do confrade Josevandro Nascimento/Foto José Nazal



Confrade Manoel Carlos recebe o broche pelas mãos da confreira Anarleide Menezes/Foto José Nazal





Antônio Hygino, Antônio Lopes, Gerson dos Anjos, Josevandro Nascimento, André Rosa, Manoel Carlos e Anarleide Cruz Menezes/Foto José Nazal



O confrade e professor Edvaldo Brito fez o discurso de saudação ao novo confrade Manoel Carlos de Almeida Neto/Foto José Nazal.





No seu discurso de posse, o confrade Manoel Carlos de Almeida Neto ressaltou os feitos de seu patrono Visconde de Cairu e do efetivo e fundados anterior  o confrade José Cândido de Carvalho Filho. Foto José Nazal.


Manoel Carlos recebe da avó, dona Sara Albagli, uma medalha do avô Manoel Carlos, membro efetivo anterior da Academia de Letras de Ilhéus que ocupou a cadeira nº 33. Foto: José Nazal.



 

quarta-feira, 23 de março de 2022

JURISTA TOMA POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS, NESTA SEXTA-FEIRA, 25 DE MARÇO




O jurista Manoel Carlos de Almeida Neto, (foto), tomará posse como novo membro da Academia de Letras de Ilhéus, na próxima sexta-feira (25), em solenidade que ocorrerá às 18h30min, na sede da entidade, localizada no Centro Histórico do município. O novo membro da ALI passará a ocupar a Cadeira 39, antes pertencente ao fundador da instituição, José Cândido de Carvalho Filho, que foi ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Manoel Carlos é doutor e pós-doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Advogado e vice-presidente da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB, o novo membro da ALI foi professor da Faculdade de Direito da USP (2020-2022) e da Faculdade de Direito da UESC (2005-2006), secretário-geral da presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

É autor das obras “O novo controle de Constitucionalidade Municipal” (editora Forense), “Direito Eleitoral Regulador” (RT), “Juiz Constitucional” (RT), dentre outras. A posse de Manoel Carlos de Almeida Neto na Academia de Letras de Ilhéus coincide com o lançamento nacional da sua mais recente obra literária, “O Colapso das Constituições do Brasil: uma reflexão pela democracia”, considerado pelo ex-presidente da República e membro da Academia Brasileira de Letras, José Sarney, um “trabalho insubstituível na literatura de nosso Direito Constitucional”. É o ex-presidente da República quem assina o prefácio do livro.

O ministro do STF, Ricardo Lewandowski é outra personalidade a falar do livro. “Com rigor acadêmico e destacada originalidade, esta obra do professor Manoel Carlos de Almeida Neto, fruto de longa e proveitosa pesquisa de pós-doutorado na Faculdade de Direito da USP, revisita os últimos duzentos anos da história político-institucional do País para desvendar os fatores reais do poder que deram vida e decretaram a morte das distintas Constituições brasileiras, propiciando aos leitores uma reflexão sobre as raízes sociológicas determinantes da fragilidade de nossa democracia”, escreveu. Na semana de lançamento nacional, o livro ocupou a 12ª posição no top 100 de vendas pelo site Amazon, no segmento “Especialidades profissional e técnico”.

Uma das academias de letras mais antigas do Brasil, a Casa de Abel, fundada em 1959, já reuniu personalidades como Adonias Filho, Jorge Amado, Zélia Gatai, João Mangabeira, Orlando Gomes, entre outros imortais. A solenidade de posse do novo acadêmico deve reunir personalidades da cultura e literatura baiana.

Texto: Maurício Maron

terça-feira, 15 de março de 2022

SEMANA DE ARTE MODERNA INSPIRA INÍCIO DOS TRABALHOS DA ACADEMIA


Momento de execução do Hino Nacional - Foto: Alderacy Pereira


A Academia de Letras de Ilhéus iniciou os trabalhos deste ano com a conferência do professor Fernando Oliveira/UESC, com o tema “A vida é devoração pura: somos todos antropofágicos”, que remete à Semana de Arte Moderna de 1922 e, por óbvio, ao Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, pilar do movimento nascido em São Paulo. O mestre explicou que, tendo como inspiração os rituais canibalescos dos índios tupinambás, Oswald sugeria, em poderosa metáfora, que a cultura brasileira, ao modelo dos índios devorando o inimigo capturado, “comesse” os bens culturais europeus, após a devida “preparação”, como numa cerimônia tupinambá, criando, a partir dessa absorção, um produto cultural genuinamente brasileiro. Era a reação nacional ao “sistema de cópias” em vigor, quando Brasil refletia Coimbra, Portugal e a Europa culta. “A Semana de Arte Moderna não queria aquele bom selvagem de Rousseau, mas o nosso mau selvagem, o autêntico antropófago, que aculturava os valores vindos de fora”, salientou o conferencista.


Prof. Dr. Fernando José Reis Oliveira. 
Ao fundo, o poeta patrono da ALI, Castro Alves. Foto: Alderacy Pereira.

Bahia resistente

O professor Fernando Oliveira, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, defende que a Semana de Arte Moderna não foi, como alguns estudiosos afirmam, um movimento “paulista”, isolado, mas, ao contrário, teve grande influência nacional e, sobretudo, na Bahia, com destaque para Jorge Amado, Juarez Paraíso, Edson Carneiro, Mário Cravo Jr. Sosígenes Costa e, posteriormente, a Tropicália, Os Doces Bárbaros, Caetano Veloso e tantos outros. “A questão é que a Bahia reagiu tardiamente à Semana de Arte Moderna”, diz Fernando Oliveira aos que estranham a participação dos baianos tanto tempo depois de 1922. Essa resistência aos novos cânones da arte se deveu, de acordo com o historiador Fernando da Rocha Perez, ao conservadorismo que imperava na Bahia, com grupos tradicionalistas poderosos e articulados, que se faziam presentes e fortes em toda a sociedade, nos espaços públicos, nas instituições privadas de cultura e até nas redações dos jornais. “Foi preciso conquistar os suplementos culturais para que se pudesse discutir e divulgar a arte moderna na Bahia”, atesta Rocha Perez. 



Por orientação da OMS, tivemos limitar o acesso ao público/Foto: Alderacy Pereira.


O professor Fernando Oliveira ainda citou uma vasta lista elementos que marcaram a ruptura dos moldes estéticos então vigentes no Brasil, com destaque para os trabalhos de Di Cavalcanti, na pintura, e a prosa transgressora de Guimarães Rosa.  Na Bahia, diz o conferencista, foram “canibalizados” elementos da música, da escultura, da literatura e do sincretismo religioso, com símbolos cristãos e do candomblé, presentes nas concepções de Mário Cravo Jr.
A sessão especial de abertura dos trabalhos acadêmicos de 2022 foi dirigida pelo presidente Pawlo Cidade e a secretária-geral Jane Hilda Badaró.

Da esquerda para a direita: Antônio Carlos Hygino, Maria Schaun, André Rosa, Antônio Lopes, Luh Oliveira, Sebastião Maciel Costa, Pawlo Cidade e Jane Hilda Badaró. Foto: Ruy Penalva.







Texto do confrade Antônio Lopes.

terça-feira, 8 de março de 2022

ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS ABRE ANO ACADÊMICO 2022, EM 14 DE MARÇO, COM PALESTRA DO PROF. FERNANDO OLIVEIRA.



Em 14 de março, data regimental para abertura do seu Ano Acadêmico, data comemorativa do aniversário do poeta baiano Castro Alves e Dia da Poesia, a Academia de Letras de Ilhéus realiza sessão às 19 horas, na Rua Antônio Lavigne de Lemos, 39, centro. Conforme explica o escritor Pawlo Cidade, presidente do silogeu, “embora a sede da ALI possua capacidade para acomodar 70 pessoas, somente trinta e cinco (35) pessoas serão acolhidas no evento, ou seja, 50 por cento da capacidade, devido às medidas de segurança sanitária em decorrência da pandemia da COVID 19”. Assim, os interessados devem confirmar suas presenças através do e-mail academiadeletrasdeilheus@gmail.com, até o dia 11 de março (sexta-feira). Na oportunidade haverá uma conferência com o docente da Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC, o prof. Dr. Fernando José Reis Oliveira, cujo tema será “A vida é devoração pura, somos todos antropofágicos”. 

O conferencista (foto) é graduado em Economia pela Universidade Católica do Salvador, Mestre em Economia Brasileira pela Universidade Federal da Bahia - UFBA e Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica-PUC(SP). Professor-Adjunto do Departamento de Letras e Artes - DLA. Vice-Diretor do Departamento de Letras e Artes (DLA) da Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC, Coordenador e Professor do Curso de Pós-Graduação em Gestão Cultural, lato sensu, Docente-pesquisador e Líder de Grupo de Pesquisa no CNPQ, na área de Comunicação e Cultura. Professor do Ensino Superior há mais de 30 anos, atuando em diversas instituições de ensino superior nos estados da Bahia e em São Paulo: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS-BA), Universidade Católica de Salvador (UCSal), Universidade Federal da Bahia-UFBA/Instituto de Humanidade Artes e Ciências (IHAC),Universidade Mackenzie(SP), Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), Fundação Armando Álvares Penteado, Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi Produtor Cultural do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)- São Paulo.



Texto: Jane Hilda Badaró 

Acadêmica/Secretária Geral da ALI

 

 

NOSSOS SENTIMENTOS!


 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

V PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA TEM NOVO PRAZO DE ENTREGA E NOVAS ESPECIFICAÇÕES



O Prêmio é uma homenagem ao 
grande poeta Sosígenes Costa


RETIFICAÇÃO EDITAL UESC N° 125/2021 - ABERTURA DE INSCRIÇÕES PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA

 

A UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ e a ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS retificam o edital nº 125/2021, referente ao V PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA, nos termos e condições estabelecidos neste regulamento.  

 

No item “2. DAS INSCRIÇÕES”, acrescenta-se o subitem 2.9 abaixo:

 

2.9. O arquivo da obra tem que conter folha de rosto, na qual deverá constar apenas o TÍTULO e o PSEUDÔNIMO do autor. A obra enviada deverá ter entre 70 (setenta) e 80 (oitenta) páginas obrigatoriamente. O texto deverá ser digitado em apenas um lado da folha, fonte Times New Roman, tamanho 12, na cor preta, espaçamento 1,5 e em formato A4. Cada poema deverá começar em página própria

 

No item 2.3, onde se lê “As inscrições são on-line, gratuitas e estarão abertas no período de 3 de janeiro a 4 de março de 2022”, leia-se “As inscrições são on-line, gratuitas e estarão abertas no período de 3 de janeiro a 18 de março de 2022”.

 

Aqueles que já efetuaram as inscrições com arquivo que não atende o que está estabelecido no item 2.9 desta retificação poderão realizar novamente o processo de inscrição enviado novo arquivo com a formatação exigida, desde que respeitando os prazos constantes neste edital.

 

 

Campus Prof. Soane Nazaré de Andrade, xx de fevereiro de 2022.

.  

 

ALESSANDRO FERNANDES DE SANTANA

REITOR

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O MESTRE NOS DEIXOU! ILHÉUS PERDE ARLÉO BARBOSA, PROFESSOR, HISTORIADOR E EX-PRESIDENTE DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHEUS


Arléo Barbosa, 27/09/1939 a 19/02/2022 - Foto: Divulgação


“Tenho a sensação de que contribui com a história de Ilhéus. Principalmente quando vejo minha obra publicada em bibliografias de obras internacionais. É a sensação de que valeu à pena. E se tivesse que começar, faria tudo novamente.” 


Personalidade ilustre e respeitada, o professor Carlos Roberto Arléo Barbosa faleceu na tarde deste sábado (19), aos 82 anos. A notícia do seu passamento comoveu a sociedade baiana, que reconhece a importância do trabalho desenvolvido ao longo das últimas seis décadas para a história e cultura da região sul do estado. O professor Arléo deixa a esposa, Cláudia, cinco filhos: Roberto, Ronaldo, Renato, Rosana e Thiciano, noves netos, quatro bisnetos, uma legião de admiradores e um imenso legado para o ensino em Ilhéus.

O prefeito Mário Alexandre manifesta profundo pesar pela morte do educador e lembra a sua dedicação e o seu comprometimento com o resgate cultural e histórico do município. “Ilhéus perde um exemplo de mestre, ser humano e de cidadão. O professor Arléo Barbosa fez uma revolução no estudo de história e se tornou a memória da nossa cidade. Deus o acolha no Reino Celestial e na sua infinita misericórdia conforte a todos”.

Ocupante da cadeira número 19 da Academia de Letras de Ilhéus (ALI), Arléo Barbosa possuía extenso histórico acadêmico, sendo presidente da entidade, de 2009 a 2013, e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), de 1974 a 2008, com Especialização em História Regional e História Contemporânea. Entre as obras publicadas por ele, destacam-se: Monarquismo e Educação (1972); Nhoesembé (1973); Ilhéus (2010) e Notícia Histórica de Ilhéus, cuja última versão foi publicada em 2013.



Professor Arléo sempre estava presente nas atividades da ALI/Foto: Eliene Hygino


Nascido em Jequié, ele chegou à terra de Jorge Amado ainda na adolescência, recebendo o título de cidadão ilheense em 1986. Sua paixão pela educação fez com que fundasse o Colégio Fênix, em 1988, instituição de ensino tradicional na qual também integrava o quadro de docentes. Em 2004 foi homenageado com a entrega da Comenda do Mérito São Jorge dos Ilhéus, título dado a homens e mulheres que colaboram para o progresso do município.

O velório acontece na Loja Maçônica Vigilância e Resistência, na Avenida Itabuna, a partir das 22h00, de hoje, 19/02/22

O sepultamento será às 10h30, no Cemitério da Vitória, do dia 20/02/22.

“Tenho a sensação de que contribui com a história de Ilhéus. Principalmente quando vejo minha obra publicada em bibliografias de obras internacionais. É a sensação de que valeu à pena. E se tivesse que começar, faria tudo novamente” (trecho de entrevista concedida ao site A Região, em março de 2004).


Fonte: Secom/Ilhéus
Com notas da ALI.

NOTA DE PESAR





O grande mestre se foi nesta tarde de 19 de fevereiro de 2022. A Academia de Letras de Ilhéus sente a perda do confrade querido que ocupou a cadeira de número 19. Vá em paz, meu amigo. Daqui a pouco daremos mais informações sobre o velório e sepultamento.

"CHUVA DE JANEIRO", por Cyro de Mattos

                           

 

Depois que o marido faleceu perdeu o interesse pela vida. Vivera com ele trinta anos de casada e soubera que o calor do corpo aquece o amor. Quando se é idosa, a experiência de vida diz que esse calor do corpo some, ainda mais quando o seu homem já não está mais ao seu lado para consumar o ato mais prazeroso da vida. 

Os dois filhos estavam casados, viviam no exterior. Ela morava em um apartamento de quarto e sala. Passava com a aposentadoria de professora estadual. Todos os dias seguia para a pensão onde fazia a refeição do almoço. Sentava em uma mesa reservada para ela no canto da sala.  Lá viu pela primeira vez o homem de cabelos brancos que olhava para ela. Tinha um brilho diferente nos olhos.  O olhar dele se repetiu nos outros dias, deixando-a sem jeito. Ficou assustada quando ele se levantou de sua mesa e pediu permissão para fazer-lhe companhia durante a refeição. 

        Disse que era um viúvo aposentado, fora funcionário do Banco do Brasil. Um dia convidou-a para passear no parque. A princípio relutou, mas diante da insistência dele outras vezes, resolveu aceitar o convite.  Conversaram sobre a vida, seus momentos entre o alegre e o triste, foram se tornando íntimos.  Num ponto concordaram, viver sozinho, sem ter ninguém como companhia, era ruim. Deram uma volta no jardim, sentaram no banco embaixo da árvore frondosa. Jogaram migalhas para os pombos e para os peixes na lagoa. 

Na tarde fresca, um vento morno passava no rosto dela em finura de  lenço e leveza de carícia. Um casal de namorados, em cada beijo que sorvia nas bocas ávidas, revelava que a vida era boa e bela, assim no calor que se estendia por toda a extensão da pele só podia ser dado valor a ela. Ele fez questão de levá-la até o prédio onde ficava o apartamento dela. Na entrada do pequeno edifício olharam-se em silêncio antes de cada um querer dizer algo ao outro, que eles mesmos já sabiam o que era e que pulsava como uma chama que lampeja dentro. Talvez um convite para conhecer o apartamento de perto por ele. Convite dessa natureza seria impossível, embora houvesse no rosto de cada um deles o olhar cintilante de brilho.

          Ele disse:

- Muito obrigado.

Ela disse:

- Obrigada digo eu. 

Despediram-se com leve aperto de mão.

Era janeiro e ainda não havia caído a chuva de verão. 

Daquela vez quando terminaram de fazer o passeio pelo parque, ele a convidou para conhecer o apartamento dele. Era também um quarto e sala. Ela perguntou quem fazia a arrumação e o asseio. Respondeu que havia contratado uma faxineira. Vinha duas vezes na semana fazer a faxina. Notou que certas coisas não estavam no lugar devido. Fez a arrumação com esmero.  Limpou a poeira na mesa e nas duas cadeiras. Deu brilho em alguns objetos domésticos. Um pouco cansada foi tomar um banho no chuveiro de água quente. Vestiu o roupão que pertenceu a ex-mulher dele.  

Ela sorriu quando ouviu o convite para ir se deitar com ele. 

     Então vieram os primeiros beijos. O ato para que alcançasse o auge exigia concentração e esforço. E aconteceu o máximo quando o prazer de ambos ao mesmo tempo precipitou a vertigem. Souberam que ainda restavam um pouco neles daquilo que motiva a vida. Era preciso de agora em diante aproveitar bem antes que não restasse mais nada. Foram alguns anos de convívio harmonioso, decorrente da união sem atrito entre o espírito e o corpo, que acordava rejuvenescido, embora no estado de fuga repentina em cada vez que o ato se consumava dentro algo precioso ia ficando longe nos seus contornos definidos.  

 Quando ocorreu aquela primeira vez em que dormiram juntos, ela lembrava agora, acordou no final da tarde. Movimentou-se no quarto com cuidado, não queria interromper o sono tranquilo dele. Foi até a janela. 

 E, cheia de vida, ficou olhando cair pelo vidro a chuva de verão.  


Cyro de Mattos, é membro da ALI, da ALITA. e da ALB.

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

RESENHA


REALISMO MÁGICO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI: 
RIO DAS ALMAS, DE PAWLO CIDADE

Ivo Korytowski*

Por que esse oximoro “realismo mágico” ou “realismo fantástico”? O que é real não é mágico/fantástico, e vice-versa. Por que não simplesmente “fantasia” ou “literatura fantástica”? Porque, ao contrário das obras quintessencialmente fantásticas, o romance não tem por cenário um ambiente irreal: uma Nárnia, uma Terra de Oz, uma Liliput. As histórias do realismo mágico costumam transcorrer em cidades interioranas típicas de algum país latino-americano, cidades que por suas características, pelo perfil de sua população, poderiam perfeitamente existir. Só que, em meio à rotina cotidiana de pessoas aparentemente normais – não são seres mitológicos, chifrudos, alados, com um olho na testa, é gente como a gente – eventos fantásticos começam a acontecer do nada, como se normais fossem. Esta é a lógica do realismo fantástico, que o distingue do puro romance de fantasia ou do puro romance realista (ou naturalista). Ou, segundo a Enciclopédia de Literatura Merriam Webster, “fenômeno literário latino-americano caracterizado pela incorporação de elementos fantásticos ou míticos, como se fossem reais, a uma ficção que normalmente seria realista. O termo foi aplicado à literatura no final da década de 1940 pelo romancista cubano Alejo Carpentier, que reconheceu a tendência dos contadores de histórias tradicionais de sua região, bem como de escritores contemporâneos, de iluminar o mundano por meio do fabuloso.” (verbete magic realism; tradução minha) 

Na segunda metade do século XX, a América Latina de língua espanhola foi pródiga em autores do realismo fantástico ou mágico, alguns com projeção internacional: Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende, etc. Já no Brasil, onde o modernismo dominou o ambiente literário por mais de meio século, o realismo mágico se manifestou mais na teledramaturgia, em novelas de televisão de enorme sucesso como SaramandaiaRoque SanteiroO Bem Amado. Mas eis que, em plena segunda década do “século seguinte”, o pedagogo e dramaturgo natural de Ilhéus, Bahia, Pawlo Cidade surpreende-nos com esta obra de realismo mágico/fantástico Rio das Almas.

Bem escrito, imaginação a pleno vapor, poder descritivo, vocabulário rico. O autor se diz influenciado por (entre outros) Jorge Amado e Gabriel Garcia Márquez. A história começa em 9 de fevereiro de 1968, plenos anos sessenta, quando o realismo mágico latino-americano galgava listas de best-sellers mundo afora.

A trama gira em torno do “funcionário do governo” Pedro Perigot, “um dos maiores hidrólogos do país”, que, a mando do governo, viaja em sua camioneta até Rio das Almas, o povoado que não estava no mapa, palco no passado de um massacre de índios juma – passando no caminho pelo Vale dos Absurdos, onde uma vez por ano o sol brilha em plena meia-noite – a fim de pesquisar o poder medicinal de suas águas. A própria mãe de Pedro havia sido miraculosamente curada de uma doença terminal por uma garrafa do líquido (“A Magnólia Parigot [...] destruída pela doença dava lugar a uma mulher jovem, bonita”), levando o filho a se dedicar ao estudo medicinal da água de Rio das Almas. “Se dizia em Betânia e em todas as cidades circunvizinhas que a água era a principal responsável pela longevidade dos seus habitantes. Apesar dos rios atravessarem toda a região, apenas Rio das Almas não registrava mortes nos últimos dezenove anos. Dizia a lenda que beber na nascente do rio das Almas prolongaria a vida [...]”.

Assim que chega lá, Pedro presencia uma cena de dimensões bíblicas: a ressurreição do velho Deocleciano. Antigo funcionário público que administrava a estação de tratamento de águas, leitor dos grandes filósofos da humanidade, após várias tentativas de suicídio a fim de desafiar Deus, enfim conseguira seu intento à vista de todos, quando tentava provar que não conseguiria. Mas no momento da chegada de Pedro, para o espanto de todos, Deocleciano ergue-se do caixão. Até o Repórter Esso relatou o prodígio: um homem voltara dos mortos num povoado perdido no mapa. A morte abandonara Rio das Almas. A morte foi aniquilada de Rio das Almas.

O autor brinca com a fantasia da abolição da morte com que já brincara antes Orígenes Lessa, em A desintegração da morte, e José Saramago em As intermitências da morte. O inusitado é a regra aqui. Já no capítulo de abertura deparamos com o primo Duas Caras, metade do rosto queimado de sol, metade não; o andarilho Miguel que por mais calor que faça nunca bebe água, e sempre alcança a camioneta, por mais que esta se adiante; Dona Santaninha, cujo marido tenta esticá-la para ficar tão alta quanto ele; a família de olhos violetas, etc.

O autor faz desfilar pelo romance uma galeria de personagens incomuns. O torneiro Jafé que trai a esposa com a própria sogra e que também acaba ressuscitando. Francisco Lino, o Chico Rola, que após duas décadas de impotência vê-se acometido de um priapismo persistente e doloroso. Maria Marta Encarnação, cujo marido prometeu que “Se você não for ao mar, o mar virá até você!”. Andrezinho, o menino com trejeitos de afeminado que, atormentado pelo pai, aparentemente foge de casa. Zé Romão e Cícero Paulada, “os mais hábeis magarefes de Rio das Almas”. Os burros Cosme e Damião, sobreviventes do desmoronamento da mina, cuja morte desencadeia a discussão de se possuíam alma como os humanos...

Na segunda parte a narrativa, compassada de início, adota um ritmo frenético e paroxístico, onde o elemento realista explode em crimes e pecados abomináveis, e o elemento mágico, em prodígios inauditos.

Era uma vez, um povoado chamado Rio das Almas.



Ivo Korytowski é escritor, tradutor consagrado (tendo traduzido 195 livros), lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Nasceu no Rio de Janeiro em 1951 e desde 2019 mora em São Paulo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS COMEMORA O CENTENÁRIO DA SEMANA DE ARTE MODERNA COM DEBATES


No ano em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna, a Academia de Letras de Ilhéus promove uma série de debates sobre um dos períodos mais marcantes da história das artes no Brasil. O primeiro debate ocorre no dia 14/2, com a participação de Ruy Póvoas, Cyro de Mattos e Maria Luiza Heine sobre o tema “a concepção da identidade nacional”. No dia 15/2, Ramayana Vargens, André Rosa e Pawlo Cidade falam sobre “origens e consequências da semana de 22”, também às 19h; no dia 17/2, Anarleide Menezes e Pola Ribeiro discutem sobre “a valorização do nosso patrimônio cultural”e por fim, no dia 18/2, Josevandro Nascimento, Aleilton Fonseca e Geraldo Lavigne debatem sobre “ideologia e desenvolvimento”.

 

A SEMANA DE ARTE MODERNA

 

A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda para o modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; a música por meio de concertos, que antes só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados e modernos. A Semana de Arte Moderna ocorreu entre 11 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal, em São Paulo.