quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ARTIGO


Canavieiras, Flisba e Memória



Sítio Histórico do Município de Canavieiras


O município de Canavieiras está situado no sul da Bahia e possui quase 33 mil habitantes, conforme censo do IBGE, em 2022. A cidade cresceu às margens do Rio Pardo, cujas águas viram brotar os primeiros pés de cacau, na Fazenda Cubículo, por volta de 1746. Mais tarde, o cultivo do cacau mudaria à realidade da nação grapiúna e foi nesse cenário que a 5ª edição do Festival Literário Sul Bahia (Flisba) ocorreu entre 20 e 22 de agosto último. O Flisba teve como tema “Literatura e sustentabilidade: um encontro com a cultura popular”. De fato, não haveria um chão tão simbólico, como Canavieiras, para debater conteúdos relacionados à preservação do meio ambiente, às questões culturais, o patrimônio histórico e a literatura.

Na cidade de Canavieiras nasceu Elvira Foeppel, em agosto de 1923, cuja mulher se enveredou pela literatura. Mudou-se para Ilhéus, onde conviveu com diversos intelectuais: Adonias Filho, Cyro de Mattos, Hélio Pólvora, Dorival de Freitas, Sosígenes Costa, Raimundo Sá Barreto e Jorge Amado entre outros. Posteriormente, foi morar no Rio de Janeiro e se tornou amiga de Clarice Lispector. Elvira atuou em jornais do sul da Bahia, assim como no Rio de Janeiro e publicou livros literários. Sobre a produção literária de Elvira, o escritor Hélio Pólvora comentou: "Muito lida, conhecedora dos bons textos em prosa e verso, amadurecida, Elvira destacava-se intelectualmente em seu meio. Uma mulher que sabia das coisas."

Canavieiras também foi o lugar de morada de Afrânio Peixoto, cuja produção intelectual o imortalizou na Academia Brasileira de Letras. O literato apresenta noslivros “Maria Bonita”, publicado em 1914, pela primeira vez, as paisagens e o contexto das fazendas de cacau baianas, assim como em “Fruto do Mato” de 1920, o interior baiano e a expansão agrícola do cacau. Por sinal, alguns estudos têm apontado que a cultura do cacau contribuiu para a preservação da mata atlântica no polígono da cultura do cacau, visto que a plantação do cacau precisava de sombra - fenômeno da cabruca.

Então, Canavieiras foi abençoada pela literatura e por diversas manifestações culturais. Caminhar pelo sítio histórico é constatar uma boa quantidade de casas e sobrados preservados pelos moradores e comerciantes. As fachadas e pinturas guardam os tempos áureos do cacau e a forte circulação de pessoas. Agora, observa-se a cidade caminhando para a consolidação do turismo, da pesca esportiva e a produção de chocolates. Canavieiras merece ser interligada a Belmonte por meio da ponte sobre o Rio Pardo e rodovia, encurtando a distância das cidades do Litoral Sul e da Costa do Descobrimento, consolidando o turismo baiano sob a lógica do desenvolvimento sustentável.



Efson Lima

Professor de Direito Internacional da Unilab. Membro das Academias de Letras de Ilhéus e da Grapiúna de Artes e Letras e da Comissão Organizadora do Flisba

efsonlima@gmail.com

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