A neblina
densa cobria a cidadezinha com um véu diáfano. Luz difusa, por trás da cortina
definia as formas. Dr.Cordeiro Lima, misto de médico e fazendeiro-de-cacau, já
de botas e esporas, aguardava o Maroto - vendedor de doce transformado em
camarada-de-viagem, por força da puberdade...
Já montado,
a besta "queimada" castanholando "picado"na estrada
calçada, ruminava decisão firme de suspender todos os serviços da fazenda,
mesmo os de rotina.
O Dias,
gerente de firma exportadora, dera-lhe as piores notícias sobre mercado de
cacau. A noite a televisão confirmara, anunciando baixa na Bolsa de Mercadorias
de Nova Iorque. Na roda de amigos na esquina, era só em que se falava. Até o
Freitas, recém chegado da capital, saíra de seu otimismo costumeiro para
anunciar a crise que se esboçava. O Dr. Osvaldo - representante dos produtores
- não trouxera boas notícias da África.
- Só tem um jeito: parar tudo. Evitar despesas. Não se vai arriscar num
negócio, sem pelo menos saber-se em que vão parar as cousas. Pensava.
A Bolsa de
Mercadorias de Nova Iorque, espécie de fantasma indefinível, distante, ninguém
entendia. O cacau sobe baixa sem causa sabida.
Por que
sobe? Por que baixa?
-Coisa lé
dos gringo. Ninguém entende - diziam mateiros, acomodando os pensamentos.
-Eu sou
mateiro de anel, pensava o médico. Conhecia de perto o divórcio da escola com a
vida prática. Fizera todos os cursos preparatórios para atingir o de medicina.
Possuía boa bagagem de cultura geral, afirmada inclusive pela aprovação
"plenamente"conseguida em todos os exames escolares, tanto escritos
como orais. Mas em todos esses currículos não estavam incursos crédito
bancário, bolsas de mercadorias, formação de preços, exportação, e todo um
complexo de conhecimentos que a prática da vida exige. Ele, o médico; o homem
que estudara latim, matemática, química, física, história natural, geografia,
história da civilização e do Brasil, literatura, desenho, francês, inglês, português
, instrução moral e cívica, botânica, estava alí incapaz de compreender cousa
que deveria ser tão simples. Imaginava os mateiros semi e os totalmente
analfabetos...
-Somos todos
presa fácil dos espertos. Ninguém sabe nada a respeito de seu próprio produto.
Ele mesmo, ledor de revistas e livros técnico-agrícolas: mantedor de conversas
e mesmo correspondência com sessões especializadas; fazendo também suas
pesquisazinhas, orientadas pelo Dr.Augusto Silva, agrônomo lido e
experimentado, que escapou da burocracia; levava sempre a pior quando
comerciava o seu produto.Estava convencido de que para o produtor de cacau,
eram indispensáveis os conhecimentos de finanças. Estes sim.