terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

V PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA TEM NOVO PRAZO DE ENTREGA E NOVAS ESPECIFICAÇÕES



O Prêmio é uma homenagem ao 
grande poeta Sosígenes Costa


RETIFICAÇÃO EDITAL UESC N° 125/2021 - ABERTURA DE INSCRIÇÕES PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA

 

A UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ e a ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS retificam o edital nº 125/2021, referente ao V PRÊMIO SOSÍGENES COSTA DE POESIA, nos termos e condições estabelecidos neste regulamento.  

 

No item “2. DAS INSCRIÇÕES”, acrescenta-se o subitem 2.9 abaixo:

 

2.9. O arquivo da obra tem que conter folha de rosto, na qual deverá constar apenas o TÍTULO e o PSEUDÔNIMO do autor. A obra enviada deverá ter entre 70 (setenta) e 80 (oitenta) páginas obrigatoriamente. O texto deverá ser digitado em apenas um lado da folha, fonte Times New Roman, tamanho 12, na cor preta, espaçamento 1,5 e em formato A4. Cada poema deverá começar em página própria

 

No item 2.3, onde se lê “As inscrições são on-line, gratuitas e estarão abertas no período de 3 de janeiro a 4 de março de 2022”, leia-se “As inscrições são on-line, gratuitas e estarão abertas no período de 3 de janeiro a 18 de março de 2022”.

 

Aqueles que já efetuaram as inscrições com arquivo que não atende o que está estabelecido no item 2.9 desta retificação poderão realizar novamente o processo de inscrição enviado novo arquivo com a formatação exigida, desde que respeitando os prazos constantes neste edital.

 

 

Campus Prof. Soane Nazaré de Andrade, xx de fevereiro de 2022.

.  

 

ALESSANDRO FERNANDES DE SANTANA

REITOR

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O MESTRE NOS DEIXOU! ILHÉUS PERDE ARLÉO BARBOSA, PROFESSOR, HISTORIADOR E EX-PRESIDENTE DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHEUS


Arléo Barbosa, 27/09/1939 a 19/02/2022 - Foto: Divulgação


“Tenho a sensação de que contribui com a história de Ilhéus. Principalmente quando vejo minha obra publicada em bibliografias de obras internacionais. É a sensação de que valeu à pena. E se tivesse que começar, faria tudo novamente.” 


Personalidade ilustre e respeitada, o professor Carlos Roberto Arléo Barbosa faleceu na tarde deste sábado (19), aos 82 anos. A notícia do seu passamento comoveu a sociedade baiana, que reconhece a importância do trabalho desenvolvido ao longo das últimas seis décadas para a história e cultura da região sul do estado. O professor Arléo deixa a esposa, Cláudia, cinco filhos: Roberto, Ronaldo, Renato, Rosana e Thiciano, noves netos, quatro bisnetos, uma legião de admiradores e um imenso legado para o ensino em Ilhéus.

O prefeito Mário Alexandre manifesta profundo pesar pela morte do educador e lembra a sua dedicação e o seu comprometimento com o resgate cultural e histórico do município. “Ilhéus perde um exemplo de mestre, ser humano e de cidadão. O professor Arléo Barbosa fez uma revolução no estudo de história e se tornou a memória da nossa cidade. Deus o acolha no Reino Celestial e na sua infinita misericórdia conforte a todos”.

Ocupante da cadeira número 19 da Academia de Letras de Ilhéus (ALI), Arléo Barbosa possuía extenso histórico acadêmico, sendo presidente da entidade, de 2009 a 2013, e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), de 1974 a 2008, com Especialização em História Regional e História Contemporânea. Entre as obras publicadas por ele, destacam-se: Monarquismo e Educação (1972); Nhoesembé (1973); Ilhéus (2010) e Notícia Histórica de Ilhéus, cuja última versão foi publicada em 2013.



Professor Arléo sempre estava presente nas atividades da ALI/Foto: Eliene Hygino


Nascido em Jequié, ele chegou à terra de Jorge Amado ainda na adolescência, recebendo o título de cidadão ilheense em 1986. Sua paixão pela educação fez com que fundasse o Colégio Fênix, em 1988, instituição de ensino tradicional na qual também integrava o quadro de docentes. Em 2004 foi homenageado com a entrega da Comenda do Mérito São Jorge dos Ilhéus, título dado a homens e mulheres que colaboram para o progresso do município.

O velório acontece na Loja Maçônica Vigilância e Resistência, na Avenida Itabuna, a partir das 22h00, de hoje, 19/02/22

O sepultamento será às 10h30, no Cemitério da Vitória, do dia 20/02/22.

“Tenho a sensação de que contribui com a história de Ilhéus. Principalmente quando vejo minha obra publicada em bibliografias de obras internacionais. É a sensação de que valeu à pena. E se tivesse que começar, faria tudo novamente” (trecho de entrevista concedida ao site A Região, em março de 2004).


Fonte: Secom/Ilhéus
Com notas da ALI.

NOTA DE PESAR





O grande mestre se foi nesta tarde de 19 de fevereiro de 2022. A Academia de Letras de Ilhéus sente a perda do confrade querido que ocupou a cadeira de número 19. Vá em paz, meu amigo. Daqui a pouco daremos mais informações sobre o velório e sepultamento.

"CHUVA DE JANEIRO", por Cyro de Mattos

                           

 

Depois que o marido faleceu perdeu o interesse pela vida. Vivera com ele trinta anos de casada e soubera que o calor do corpo aquece o amor. Quando se é idosa, a experiência de vida diz que esse calor do corpo some, ainda mais quando o seu homem já não está mais ao seu lado para consumar o ato mais prazeroso da vida. 

Os dois filhos estavam casados, viviam no exterior. Ela morava em um apartamento de quarto e sala. Passava com a aposentadoria de professora estadual. Todos os dias seguia para a pensão onde fazia a refeição do almoço. Sentava em uma mesa reservada para ela no canto da sala.  Lá viu pela primeira vez o homem de cabelos brancos que olhava para ela. Tinha um brilho diferente nos olhos.  O olhar dele se repetiu nos outros dias, deixando-a sem jeito. Ficou assustada quando ele se levantou de sua mesa e pediu permissão para fazer-lhe companhia durante a refeição. 

        Disse que era um viúvo aposentado, fora funcionário do Banco do Brasil. Um dia convidou-a para passear no parque. A princípio relutou, mas diante da insistência dele outras vezes, resolveu aceitar o convite.  Conversaram sobre a vida, seus momentos entre o alegre e o triste, foram se tornando íntimos.  Num ponto concordaram, viver sozinho, sem ter ninguém como companhia, era ruim. Deram uma volta no jardim, sentaram no banco embaixo da árvore frondosa. Jogaram migalhas para os pombos e para os peixes na lagoa. 

Na tarde fresca, um vento morno passava no rosto dela em finura de  lenço e leveza de carícia. Um casal de namorados, em cada beijo que sorvia nas bocas ávidas, revelava que a vida era boa e bela, assim no calor que se estendia por toda a extensão da pele só podia ser dado valor a ela. Ele fez questão de levá-la até o prédio onde ficava o apartamento dela. Na entrada do pequeno edifício olharam-se em silêncio antes de cada um querer dizer algo ao outro, que eles mesmos já sabiam o que era e que pulsava como uma chama que lampeja dentro. Talvez um convite para conhecer o apartamento de perto por ele. Convite dessa natureza seria impossível, embora houvesse no rosto de cada um deles o olhar cintilante de brilho.

          Ele disse:

- Muito obrigado.

Ela disse:

- Obrigada digo eu. 

Despediram-se com leve aperto de mão.

Era janeiro e ainda não havia caído a chuva de verão. 

Daquela vez quando terminaram de fazer o passeio pelo parque, ele a convidou para conhecer o apartamento dele. Era também um quarto e sala. Ela perguntou quem fazia a arrumação e o asseio. Respondeu que havia contratado uma faxineira. Vinha duas vezes na semana fazer a faxina. Notou que certas coisas não estavam no lugar devido. Fez a arrumação com esmero.  Limpou a poeira na mesa e nas duas cadeiras. Deu brilho em alguns objetos domésticos. Um pouco cansada foi tomar um banho no chuveiro de água quente. Vestiu o roupão que pertenceu a ex-mulher dele.  

Ela sorriu quando ouviu o convite para ir se deitar com ele. 

     Então vieram os primeiros beijos. O ato para que alcançasse o auge exigia concentração e esforço. E aconteceu o máximo quando o prazer de ambos ao mesmo tempo precipitou a vertigem. Souberam que ainda restavam um pouco neles daquilo que motiva a vida. Era preciso de agora em diante aproveitar bem antes que não restasse mais nada. Foram alguns anos de convívio harmonioso, decorrente da união sem atrito entre o espírito e o corpo, que acordava rejuvenescido, embora no estado de fuga repentina em cada vez que o ato se consumava dentro algo precioso ia ficando longe nos seus contornos definidos.  

 Quando ocorreu aquela primeira vez em que dormiram juntos, ela lembrava agora, acordou no final da tarde. Movimentou-se no quarto com cuidado, não queria interromper o sono tranquilo dele. Foi até a janela. 

 E, cheia de vida, ficou olhando cair pelo vidro a chuva de verão.  


Cyro de Mattos, é membro da ALI, da ALITA. e da ALB.

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

RESENHA


REALISMO MÁGICO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI: 
RIO DAS ALMAS, DE PAWLO CIDADE

Ivo Korytowski*

Por que esse oximoro “realismo mágico” ou “realismo fantástico”? O que é real não é mágico/fantástico, e vice-versa. Por que não simplesmente “fantasia” ou “literatura fantástica”? Porque, ao contrário das obras quintessencialmente fantásticas, o romance não tem por cenário um ambiente irreal: uma Nárnia, uma Terra de Oz, uma Liliput. As histórias do realismo mágico costumam transcorrer em cidades interioranas típicas de algum país latino-americano, cidades que por suas características, pelo perfil de sua população, poderiam perfeitamente existir. Só que, em meio à rotina cotidiana de pessoas aparentemente normais – não são seres mitológicos, chifrudos, alados, com um olho na testa, é gente como a gente – eventos fantásticos começam a acontecer do nada, como se normais fossem. Esta é a lógica do realismo fantástico, que o distingue do puro romance de fantasia ou do puro romance realista (ou naturalista). Ou, segundo a Enciclopédia de Literatura Merriam Webster, “fenômeno literário latino-americano caracterizado pela incorporação de elementos fantásticos ou míticos, como se fossem reais, a uma ficção que normalmente seria realista. O termo foi aplicado à literatura no final da década de 1940 pelo romancista cubano Alejo Carpentier, que reconheceu a tendência dos contadores de histórias tradicionais de sua região, bem como de escritores contemporâneos, de iluminar o mundano por meio do fabuloso.” (verbete magic realism; tradução minha) 

Na segunda metade do século XX, a América Latina de língua espanhola foi pródiga em autores do realismo fantástico ou mágico, alguns com projeção internacional: Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende, etc. Já no Brasil, onde o modernismo dominou o ambiente literário por mais de meio século, o realismo mágico se manifestou mais na teledramaturgia, em novelas de televisão de enorme sucesso como SaramandaiaRoque SanteiroO Bem Amado. Mas eis que, em plena segunda década do “século seguinte”, o pedagogo e dramaturgo natural de Ilhéus, Bahia, Pawlo Cidade surpreende-nos com esta obra de realismo mágico/fantástico Rio das Almas.

Bem escrito, imaginação a pleno vapor, poder descritivo, vocabulário rico. O autor se diz influenciado por (entre outros) Jorge Amado e Gabriel Garcia Márquez. A história começa em 9 de fevereiro de 1968, plenos anos sessenta, quando o realismo mágico latino-americano galgava listas de best-sellers mundo afora.

A trama gira em torno do “funcionário do governo” Pedro Perigot, “um dos maiores hidrólogos do país”, que, a mando do governo, viaja em sua camioneta até Rio das Almas, o povoado que não estava no mapa, palco no passado de um massacre de índios juma – passando no caminho pelo Vale dos Absurdos, onde uma vez por ano o sol brilha em plena meia-noite – a fim de pesquisar o poder medicinal de suas águas. A própria mãe de Pedro havia sido miraculosamente curada de uma doença terminal por uma garrafa do líquido (“A Magnólia Parigot [...] destruída pela doença dava lugar a uma mulher jovem, bonita”), levando o filho a se dedicar ao estudo medicinal da água de Rio das Almas. “Se dizia em Betânia e em todas as cidades circunvizinhas que a água era a principal responsável pela longevidade dos seus habitantes. Apesar dos rios atravessarem toda a região, apenas Rio das Almas não registrava mortes nos últimos dezenove anos. Dizia a lenda que beber na nascente do rio das Almas prolongaria a vida [...]”.

Assim que chega lá, Pedro presencia uma cena de dimensões bíblicas: a ressurreição do velho Deocleciano. Antigo funcionário público que administrava a estação de tratamento de águas, leitor dos grandes filósofos da humanidade, após várias tentativas de suicídio a fim de desafiar Deus, enfim conseguira seu intento à vista de todos, quando tentava provar que não conseguiria. Mas no momento da chegada de Pedro, para o espanto de todos, Deocleciano ergue-se do caixão. Até o Repórter Esso relatou o prodígio: um homem voltara dos mortos num povoado perdido no mapa. A morte abandonara Rio das Almas. A morte foi aniquilada de Rio das Almas.

O autor brinca com a fantasia da abolição da morte com que já brincara antes Orígenes Lessa, em A desintegração da morte, e José Saramago em As intermitências da morte. O inusitado é a regra aqui. Já no capítulo de abertura deparamos com o primo Duas Caras, metade do rosto queimado de sol, metade não; o andarilho Miguel que por mais calor que faça nunca bebe água, e sempre alcança a camioneta, por mais que esta se adiante; Dona Santaninha, cujo marido tenta esticá-la para ficar tão alta quanto ele; a família de olhos violetas, etc.

O autor faz desfilar pelo romance uma galeria de personagens incomuns. O torneiro Jafé que trai a esposa com a própria sogra e que também acaba ressuscitando. Francisco Lino, o Chico Rola, que após duas décadas de impotência vê-se acometido de um priapismo persistente e doloroso. Maria Marta Encarnação, cujo marido prometeu que “Se você não for ao mar, o mar virá até você!”. Andrezinho, o menino com trejeitos de afeminado que, atormentado pelo pai, aparentemente foge de casa. Zé Romão e Cícero Paulada, “os mais hábeis magarefes de Rio das Almas”. Os burros Cosme e Damião, sobreviventes do desmoronamento da mina, cuja morte desencadeia a discussão de se possuíam alma como os humanos...

Na segunda parte a narrativa, compassada de início, adota um ritmo frenético e paroxístico, onde o elemento realista explode em crimes e pecados abomináveis, e o elemento mágico, em prodígios inauditos.

Era uma vez, um povoado chamado Rio das Almas.



Ivo Korytowski é escritor, tradutor consagrado (tendo traduzido 195 livros), lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Nasceu no Rio de Janeiro em 1951 e desde 2019 mora em São Paulo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS COMEMORA O CENTENÁRIO DA SEMANA DE ARTE MODERNA COM DEBATES


No ano em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna, a Academia de Letras de Ilhéus promove uma série de debates sobre um dos períodos mais marcantes da história das artes no Brasil. O primeiro debate ocorre no dia 14/2, com a participação de Ruy Póvoas, Cyro de Mattos e Maria Luiza Heine sobre o tema “a concepção da identidade nacional”. No dia 15/2, Ramayana Vargens, André Rosa e Pawlo Cidade falam sobre “origens e consequências da semana de 22”, também às 19h; no dia 17/2, Anarleide Menezes e Pola Ribeiro discutem sobre “a valorização do nosso patrimônio cultural”e por fim, no dia 18/2, Josevandro Nascimento, Aleilton Fonseca e Geraldo Lavigne debatem sobre “ideologia e desenvolvimento”.

 

A SEMANA DE ARTE MODERNA

 

A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda para o modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; a música por meio de concertos, que antes só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados e modernos. A Semana de Arte Moderna ocorreu entre 11 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal, em São Paulo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

CRÔNICA

Elza Soares morre aos 91 anos, no Rio de Janeiro

Elza, 23/6/1937 a 20/01/2022



 Elza Soares 

 

Arrebatava a plateia com seu ritmo musical diferente, que arranhava a garganta e brincava com o som. Vi de perto em minha juventude quando deu um show de espetáculo cantante ao se exibir com uma voz esplendorosa no Cine Teatro Itabuna e no Clube Social de Itabuna. Sua voz era puro jazz na garganta inflamada, no melhor proveito, improviso e efeito. Uma desordem musical causando harmonia impetuosa e prazerosa. 

Uma mulher negra, que veio da pobreza, na favela com a lata d'água na cabeça, no morro ainda adolescente subia e descia, não se cansava, noite e dia.  Em condições precárias cantava para enganar a difícil dureza da vida e foi se descobrindo com uma entonação musical que só ela tinha, cheia de malabarismos vocais. 

Voz das vozes, flor do samba que expandia alegria para quem a ouvisse, contagiando a todos com aquele timbre musical forte. E assim com seu jeito de cantar versátil ganhou o mundo, nos lugares mais distantes mostrou que o Brasil é grande quando beneficiado com criaturas como Elza e outras do mesmo naipe. 

Que mulher incrível com sua entonação musical! Eu só acreditava porque estava vendo, como era que ela fazia aquilo com a voz? Só podia ganhar o mundo, com indiscutíveis méritos e receber os beijos merecidos da glória.

         Trouxe no coração Garrincha, o gênio de pernas tortas, a alegria do povo com os seus dribles incríveis. Quando o craque já não mais valia para o futebol, como mulher corajosa deixou que se fosse no jogo adverso da vida. Amparou seu menino grande, aquecendo o corpo do campeão mundial de futebol com a febre do amor, adoçando o seu coração quando o sentia com a cor triste da manhã e a incerteza da noite.   

      Notável exemplo de vida. Acredito que tenha ido para o lado de lá, na sua viagem sem volta, cantando e sambando. Levou Elza, na sua chegada do lado de lá, meu beijo gravado no lado de cá quando eu a ouvia cantar e ficava com uma vontade assanhada para sambar. Não somente eu, mas quem gostasse de viver com o ritmo delirante do samba.  


Cyro de Mattos, membro das academia de Ilhéus, Itabuna e da Bahia

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ESCRITORES BRASILEIROS DO SÉCULO XX

               

Cyro de Mattos

               

            Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, Nelly Novaes Coelho, intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes, como Literatura e LinguagemLiteratura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras BrasileirasDicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil BrasileiraPanorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela pra lá dos oitenta anos comparece com ensaios fecundos para brindar seu público leitor com a obra Escritores Brasileiros do Século XX, publicado pela Editora Letra Selvagem.

           

Monumental testemunho crítico, o alentado volume é resultado de cinquenta anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América. São oitenta e um escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade e João Ubaldo Ribeiro, passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho e Murilo Rubião.        

         
E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:   Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Nicodemos Sena. Todos esses autores, elencados nessa obra de natureza o  enciclopédica, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao mundo. 
         
A ensaísta admirável revela:

        - Foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em meu caminho os oitenta e um escritores reunidos e analisados neste meu último livro. 

        

A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa enorme ensaísta.   Os autores no extenso volume analisados tiveram, sim, a sorte ou o acaso,  posto em seus caminhos para a leitura crítica dessa valorosa analista literária. 

        

Ela disse:

        
- Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente que  chame atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da sua obra.
         
No meu caso,  de autor baiano insulado na cidade natal, no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto e enorme, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer nossa inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da professora doutora Nelly Novaes Coelho. 
         
Vale a pena repetir o que certa vez ela disse sobre a literatura: 

- Sem leitura e escrita a vida não tem emoção. 
         
Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e que, com uma vocação valorosa, na passagem dos anos, tanto demonstrou quanto a amava.

 

 Cyro de Mattos, membro das Academias de Letras de Ilhéus, Itabuna e da Bahia.

 

           

 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

PROVOCAÇÃO DE HELOÍSA PRAZERES, por Cyro de Mattos

Heloísa Prazeres é membro da Academia de Letras da Bahia/Foto Jornal Correio




Conterrânea Heloisa Prazeres, bom dia.



Atendendo seu pedido, assisti ontem à noite sua palestra em parceria com o professor Aleilton Fonseca sobre o tema agoridade, o tempo e a escrita. Bem instrutiva. Você me pede que eu diga alguma coisa sobre a atuação dos dois doutores. Só não me coloque em condição que eu não sou quando carinhosamente me chama de mestre. Mestre era Jesus, o bem-amado salvador da humanidade, que não tinha biblioteca, mas tudo sabia sobre o caminho e a verdade, permita-me. O seu chamamento de mestre não me cabe, fica por conta da generosidade.

Constato que estou como vínculo de gravidade inserido na agoridade dos tempos eletrônicos. Sincronizado ou submisso, travado pelos dias velozes no que fui como um leitor curioso e voraz de autores fantásticos. O tempo, como romanceia o genial William Faulkner, não perdoa. Há muito passei a ser sabedor que não muda, nós é que mudamos. Assim, a contragosto, por mais que eu tenha tantas explicações, do princípio ao fim nada sei de mim, nessa viagem caudalosa, pontuada de mistério. Nessa caminhada por camadas espessas de sombras, que me justapõem por caminhos que se bifurcam, tornados círculos metafísicos como rios que se repetem em busca do que não tem resposta, como nos fala Borges em suas maravilhosas ficções, aquele homem que ficou cego, mas que valia por toda uma literatura, como se refere Infante Cabrera. 

Cada vez mais estou sabendo que saímos de cena como entramos, despidos de tudo, vestidos no inexorável, nada se fazendo até agora para abrir a porteira com a clarividência e se adentrar no lado de lá. Ser ou não ser, eis a questão. Dou-me conta então que os gregos e seus deuses, a Bíblia, Shakespeare e Cervantes são quatro pilastras gigantescas de nossa evolução cultural, inauguram novos sentidos da vida. Mas quem inaugura o personagem na História é o criador do Quixote, bom não esquecer, como o antropólogo Muniz Sodré observa com conhecimento de causa. 

Depois de duas guerras mundiais, que abalaram os fundamentos do mundo, aconteceu o personagem crítico com a fixação do mal, um discurso de anti-herói em tempo de conflito mesclado com depressões e pessimismo. Com o seu dizer que põe a razão no abismo, sem escape, travado pelo cerco do absurdo indicado por Kafka. Acontece que depois da revolução industrial, este ser que tudo quer, nada lhe satisfaz, mas ainda tanto se desconhece, que se apresenta como homem ou algo que valha com o nome de homem, inventou essa nossa vida recheada de meios eletrônicos. Estou no trânsito da vida como um ser eletrônico, atônito e pasmo. Tudo é rápido, esgota num abrir e fechar de olho, aqui como acolá, expande-se e volta para a tela da agoridade.

Nessa circunstância crítica do que sou nesse momento, sincronizado com a agoridade ou vivente com a diáspora dos meios eletrônicos, nada impede que eu escreva os meus pequenos poemas, como esse a seguir chamado de Dunas: “Considero que o silêncio/reencontra-me no imenso/e me ilumina em solidão.” Preciso dizer que estou sendo influenciado por Ungaretti? São jeitos da tão discutida agoridade, um autor ser puxado pelo grande.

Com quase 83 anos, evidente que o tempo vai ficando curto. Preciso selecionar. Agrava o caso alguns abalos na saúde, o que é próprio da idade avançada. A mente continua saudável, daí continuar escrevendo e publicando, coisas de ontem e hoje como se na escrita da agoridade falassem. Você, minha conterrânea, e o professor Aleilton deram uma aula bem-sucedida sobre o tema agoridade, o tempo e a escrita. Uma exposição eficaz que fez com que eu despertasse sobre a problemática do assunto, como merece, daí agradecer aos dois doutores sobre a acuidade mental com base em instrumental teórico suficiente com que enfrentaram o desafio do assunto.

Cronos não muda, é o mesmo, mudamos nós, que nos perdemos no viver de cada instante que se vai. Com tanta velocidade, meios eletrônicos que fazem o longe ser perto, a extensão ter compreensão instantânea, tudo ficou relativo. Os seres e coisas postos no mundo para que sejam alcançados são assim detectados, às vezes com proveito, outras horas com desperdício na enxurrada visual das mensagens, mas fica evidente que, graças a Deus, ainda não conseguiram abolir o sonho. 
Como diz o enorme Fernando Pessoa, aquele que elegeu os heterônimos, substituindo o eu lírico pelas versões filosóficas do poético, “o que dói não é / o que está no coração, / mas essas coisas/ que não existirão.”

Obrigado,

Cyro de Mattos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

NOTA DE PESAR




A Academia de Letras de Ilhéus lamenta profundamente o desaparecimento da Sra. Maria Geni Lima Pereira, mãe do poeta, professor e confrade Efson Lima. Não há palavras que possam descrever a partida daquela que é constantemente comparada com o brilho das estrelas. 

Receba, querido Efson Lima, os sentimentos dos membros desta academia.

Cordialmente,


Pawlo Cidade
Presidente da ALI






quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

"HOMEM DE BEM, EXEMPLO DE INTEGRIDADE, ALMA DE LUZ"



A ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS, sente a passagem do Dr. Rui Carlos Carvalho, "homem de bem, exemplo de integridade, alma de luz". 
Nossos sentimentos à família enlutada. 
Abaixo, texto do confrade Ramayana Vargens em sua homenagem.


Pawlo Cidade
Presidente




Rui tinha 71 anos de idade


RUY, GENTE DEMAIS 
Ramayana Vargens


Morre um homem de bem. Pessoa do bem. Desaparece um exemplo de integridade. Vai embora uma alma cheia de luz. Ruy Carvalho partiu.

Sai de cena um amigo de todos. Alguém que o povo ouvia e confiava. Presença que trazia alegria e inspirava respeito e admiração. A Bahia perde uma voz crítica e corajosa, que sabia expressar - com firmeza - nossa indignação contra os danosos oportunistas no poder. Já faz falta o cidadão que, acima de tudo, amava sua terra e sua gente. Segue em paz, querido Ruy.

Lembraremos sua gargalhada gostosa. Não esqueceremos suas lutas. Não deixaremos morrer sua esperança na reconstrução de um mundo melhor e na reinvenção de um ser humano mais justo e solidário. 

Continuaremos a ver sua energia estampada na filharada bonita - “genética poderosa” (como você dizia). Recordaremos suas aventuras cheias de paixão, que desaguaram no imenso amor feliz ao lado de Elísia. 

Não deixaremos esvair-se a grandiosidade do perdão que você dedicou àqueles que o traíram politicamente. Honraremos sua memória revivendo os casos engraçados que você sabia contar com estridente maestria.

Entre zoando no céu. Santos, anjos, orixás, entidades e muita gente boa lhe esperam para a festa no paraíso. Descanse. A tristeza fica aqui. A decepção com o país, com os rumos duvidosos de Ilhéus, permanece na caminhada terrena. É coisa para o nosso presente resolver. Desfrute a paz. Missão cumprida. Muito bem cumprida.

Obrigado pela bela história que você deixa como legado. Deus lhe abençoe. Segue na luz . Grande companheiro! Valeu!

sábado, 11 de dezembro de 2021

ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS FARÁ LANÇAMENTOS LITERÁRIOS, EXPOSIÇÃO DE LIVROS E ARTE NO FESTIVAL INTERNACIONAL DO CHOCOLATE E DO CACAU.




A Academia de Letras de Ilhéus estará com um stand no 12º Festival Internacional do Chocolate e Cacau, evento que será realizado no período de 16 a 19 de dezembro do presente ano, na cidade de Ilhéus. Na programação, a ALI promoverá três(3) lançamentos literários, bate-papo com escritores, exposições de objetos pessoais de saudosos membros da ALI, exposições de obras literárias ligadas à temática cacaueira e exposição de artes plásticas. 

Dia 17, a partir das 19 horas, acontecerá o lançamento do livro “Os Nós na construção do indivíduo”, publicado pela Editora A5, do confrade Sebastião Maciel Costa. O livro é fruto da vivência do autor com pais dos mais variados níveis sociais, intelectuais e econômicos, de onde foram extraídos vários recortes de experiências de quem reconhece que falhou em poucos momentos, mas não foi capaz de reverter a falha, transformando-a em um problema irreversível.



Sebastião Maciel Costa, Maria Luiza Heine, Pawlo Cidade e Jane Hilda Badaró


No dia 18, também às 19 horas, será a vez do lançamento do livro “Memória e História: Lições de um vírus assustador”, publicado pela Editora Via Litterarum, escrito a quatro mãos pela confreira Maria Luiza Heine e a Assistente Social Suede Mayne Pereira Araújo. A obra nos conta como o coronavírus se prospectou no Brasil e no mundo, trazendo reflexões de importantes pensadores da atualidade como Yuval Harari. É, na afirmação das autoras, “uma expressão da nossa insatisfação pessoal com a vida que estávamos vivendo, com as mudanças que brotaram a partir do aparecimento da Covid19 e com a forma como muitas pessoas do nosso país encararam o enfrentamento da pandemia”.

Já no dia 19, às 18 horas, o escritor e atual presidente da Academia de Letras de Ilhéus, Pawlo Cidade, lança “O Tesouro Perdido das Terras do Sem-fim”, 2ª. edição, revista e ampliada, da obra que remonta a narrativa do desenvolvimento da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, a existência dos índios botocudos e os tempos áureos do cacau, a partir da descoberta de um mapa que leva a um lendário tesouro perdido há mais de cem anos. O livro foi copublicado pelas editoras A5 e Editora Via Litterarum.



Afrânio Peixoto, Jorge Amado e Sosígenes Costa

Obras literárias importantes serão expostas no stand da Academia de Letras, a exemplo da obra “Cacaulista”, de Inglês de Souza, publicado em 1876; Afrânio Peixoto, com o livro “Maria Bonita”; Sabóia Ribeiro, com o livro de contos “Rincões dos frutos de ouro”; Jorge Amado que publica em 1933, “Cacau”, “Terras do Sem-Fim”, 1942; “São Jorge dos Ilhéus”, 1944; “Gabriela Cravo e Canela”, 1958; “O Menino Grapiúna”, 1981 e “Tocaia Grande: A face obscura”, em 1984 e a obra “Sul da Bahia: Chão de Cacau, uma civilização regional”, publicado em 1978, de Adonias Filho. Diversos outros títulos de membros efetivos anteriores e membros efetivos atuais da ALI também serão expostos.

A acadêmica Jane Hilda Badaró, artista plástica e escritora, autora do livro “Imagens e Sentimentos: Poemas (des)engavetados & pinturas”, vai expor quadros com a temática das obras de Jorge Amado, sobre o cacau, e outras “grapiunidades”

O saudoso membro da ALI, Sosígenes Costa (1901-1968) será homenageado através da exposição da escrivaninha e da máquina datilográfica que usava para escrever seus belíssimos poemas. 

Nos quatro dias do Festival, membros da Academia de Letras de Ilhéus se farão presentes no stand para falar sobre as atividades desenvolvidas naquele vitalício ao longo dos seus 61 anos de existência. Visitantes serão contemplados com a Revista Estante, edição nº 1, recentemente lançada pela ALI.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

HOMENAGEM


DORIVAL DE FREITAS

Por René Albagli



Hoje, 8 de dezembro de 2021 seria o aniversário de Dorival de Freitas.

Ele, por certo, está muito feliz, afinal ele deve ter assistido a maravilhosa festa dos 30 Anous da Universidade Estadual de Santa Cruz UESC, organizada pelo atual Reitor Alessandro Fernandes.

Dorival é, entre tantos pioneiros, um dos professores que tem o seu nome gravado na História da Universidade Estadual de Santa Cruz UESC.

Foi estudante da antiga Faculdade de Direito de Ilhéus-FDI, aluno e orador da primeira turma daquela Faculdade, quando ainda tinha como endereço a Casa de Jorge Amado.

Naquele ano o homem pisava na Lua pela primeira vez e Dorival fez um discurso memorável: era o conflito entre o avanço da tecnologia e as imensas necessidades primárias da humanidade. Para ele , não era justo este antagonismo.

Depois, tornou-se Professor da Faculdade de Direito de Ilhéus, da Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna, quando migrou para o Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, dedicando-se, mais precisamente, à Filosofia Antiga.

Na UESC teve uma passagem pela Geseor, ao lado de Moema Cartibani.

Quando fui Eleita Reitora da UESC, Ele foi o meu primeiro Chefe de Gabinete. Fui parabenizada por José Haroldo Castro Vieira pela escolha de Dorival de Freitas como meu Chefe de Gabinete. Eu respondi a José Haroldo Castro Vieira: a Universidade exige Cultura, tenho Margarida Cordeiro Fahel como Vice Reitora e Dorival de Freitas como Chefe de Gabinete.

Dorival, embora tivesse perfil para o cargo e adorava política, era avesso às exigências do protocolo. Eu sabia disso! E então, na segunda gestão ele foi para Editus e a Editus reunia tudo que ele amava: a erudição, o fazer literário e a leveza de Maria Luiza Nora de Andrade (Baisa).

Dorival se viu livre do paletó e da gravata e com todas as chaves penduradas na cintura ele deixou crescer o seu cabelo de poeta...Muitas saudades de Dorival de Freitas!

Nota do ALI: Dorival de Freitas pertenceu a Academia de Letras de Ilhéus.

domingo, 5 de dezembro de 2021

ARTIGO

As alforrias de Rita Santana

Cyro de Mattos 



A vida é falha, não basta na sucessão dos acontecimentos. É ambígua, contraditória, do nascimento ao ocaso não satisfaz. Para onde vá finita é envolvida com as marcas inexoráveis da precariedade. Irreversível no anonimato dos dias, náufraga na memória do efêmero, submete-se ao jogo de Cronos, que tudo dá e toma. Encontra para fundamentar-se no seu ser-estar a linguagem artística, que a torna essencial, inaugurando seus dizeres com novos sentidos e conceitos. 

Nessa hora de crises e questões, a poesia entra em cena com seus modos, que são versos e motivações, buscas num obstinado empenho de totalidade, visão individual com a auscultação do absoluto no particular, exposição de alforrias, que circulam em seu íntimo, tocam os acordes já uma vez entoados, recriados, como os cria também no leitor. 

Um poema lírico é eficiente quando se pensa na sensação, palavras e versos como meios surpreendentes de seus motivos anímicos crivados de falas. É belo quando a verdadeira força e valor estão no efeito de seus motivos. Quando é pobre na sua motivação, deixa de operar a presença com eficácia perante a existência. E, sensações estranhas no ritmo, versos inócuos na ideia, o que seria inspiração e transpiração perde-se no vazio, na incapacidade de transmitir algo sério, alcançar um grau eficaz na dicção particular em que se expressa. 

O estético nesse caso sem resultado positivo, graças ao efeito ineficiente do pensamento verbal, dissociado do conteúdo rico de significados, não se faz bom nem belo, eis que se apresenta destituído de um discurso crítico, pulsante de vida, prazer e dores. Destituído de densidade na palavra, frágil assim para refletir a vida, dispensa compreensão e fruição da mensagem, pois nele não se consegue perceber o relacionamento contraditório dos seres e as coisas. 

Nesses vinte e oito poemas de Alforrias (2016), de Rita Santana, a poesia em versos livres se expressa com palavras herdeiras da língua e de neologismos inventados para reforçar o sentido, que em muitos momentos é desenvolvido pelas motivações de natureza existencial agônica. 

A metáfora fecundada de alusões apropriadas insinua a possibilidade de uma compreensão lógica e sensitiva da vida, crispada na face multifacetada de dores e falhas. Parece que tudo isso trabalhado com equilíbrio, a nível de engenho e arte, ressoa em Alforrias com a consciência dos sentimentos, intuições e razões que se prestam à perspicácia da alma, à liberação de um lirismo que corresponde a certas inclemências, paixões com a solitude do vento, invasões com as tormentas e os abortos clandestinos. 

O lirismo em que se refere a poeta para transmitir cometimentos, estruturados em estados de desejo incompleto, resulta da necessidade categórica própria dessas alforrias, que querem ser percebidas num mundo-mar de vastidões e até mesmo na forja das ilhas onde cavam suas profundidades. Seu discurso contundente em que dolorosa é a mensagem não esconde a intenção do eu e tu como vínculo de gravidade. Das suas colisões constam adultério, torpezas e vilania, sempre esse estar crítico do drama, disposto a revelar-se sem concessões do verso doce, querendo ser desdobrado em poesia secreta e prosadura. 

Essas alforrias de Rita Santana, tecidas na tristeza da alma e nas acusações eróticas do amor, distribuem-se com a temática afrodescendente, da condição da mulher frente ao homem e na versão carnal que os une e desune. Percepção do que a vida oferece em situações do desamor está no poema “Mortes Cotidianas’. 


Chove na promessa remissa do feriado

E a migração não cessa.

Entristeci há dias

E o espelho, somente ele,

Revelou o embranquecer dos pelos,

O cansaço da voz,

E a desidratação da esperança.



Chove nos confins da minha alegria.

Virei moça triste sem vontade de sorrir.

Não tenho nada!

E nada resta do ser, senão, securas.

Artroses na atriz, reumatismos no feminino

E uma alergia de afetos.



Há anos não gozo, por puro desgosto!

Há anos não canto, por puro desencanto!

Há anos não vivo, só tenho banzo! 

Por pura preguiça

De subir tantas ladeiras,

E descer tanto Morro,

Morro, morro, morro, morro...



Como observa Maria de Fátima Maia Ribeiro, na orelha desse pequeno grande livro de poemas instigantes, o lirismo atual desse poeta “definitivamente descarta a necessidade de espera de tempo e serenidade, em favor do encantamento, da exacerbação e do reencontro com camadas tantas vezes adormecidas.” 

A ilheense Rita Santana é atriz, professora graduada em Letras pela Federação de Escolas de Ensino Superior de Ilhéus e Itabuna. Mulher que se inventa em versos e na prosa de ficção curta. Além de Alforrias, publicou Tramela (2004), contos, vencedor do Prêmio Brasken de Cultura e Arte, e Tratado das Veias (2006), poesia. Um talento dos melhores que aconteceu há poucos anos nas letras contemporâneas da Bahia. 



Referência 

SANTANA, Rita. Alforrias, Editus (Uesc), Ilhéus, Bahia, 2016.