terça-feira, 12 de maio de 2015

QUINTA-FEIRA, DIA 14, TEM NOITE DA SAUDADE


A noite da saudade, em homenagem ao escritor Hélio Pólvora, ocupante da cadeira nº 24, será realizada no dia 14 de maio, com a saudação feita pelo acadêmico Aleilton Fonseca, da Academia de Letras da Bahia, às 18 horas.

Contamos com a presença de todos os acadêmicos, amigos e amantes da literatura do nosso saudoso confrade.


Hélio Pólvora era casado com Maria Pólvora Silva de Almeida. Deixou três filhos, Hélio e Raquel, frutos da união com Maria Pólvora, e uma filha (Fernanda), de união anterior. Entre os livros publicados estão os romances Inúteis Luas Obscenas (Casarão do Verbo, 2010) e Don Solidon (Casarão do Verbo, 2011), além dos livros Memorial de Outono (2005), Contos da Noite Fechada (2003) e “…de amor ainda se morre…” (2008).

quinta-feira, 23 de abril de 2015

CENTENÁRIO DE ADONIAS FILHO, por Cyro de Mattos

Comemora-se neste ano o Centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. Deixou  em sua obra de contista e romancista  cinco livros que têm como cenário o Sul da Bahia na época da conquista da terra: Os Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo vivo (1962), Léguas da promissão (1968), e As velhas  (1975).

Adonias Filho é um autor de livros de ficção que engrandece  a região cacaueira baiana no corpo das letras brasileiras. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histórias de sua gente. Nos últimos anos de vida,  mudou-se do Rio de Janeiro  e foi morar com a esposa  na sua fazenda  Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais. 
            
É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural  específico,  que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem  profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.
         
É o caso do consagrado narrador Adonias Filho. Um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.   
         
Ressalte-se que atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo,  seus falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo,  há  o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias Filho obedecem às forças cegas do destino, que resultam  de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros,  caçadores,  pequenos agricultores arruinados.
           
Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens marcantes, em cujos passos e travessias ressoam  os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes. Foi diretor da Biblioteca Nacional, Editora A Noite, Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou o Prêmio Nacional da Fundação Educacional do Paraná, Instituto Nacional do Livro, Jabuti, Pen Club do Brasil  e  Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante  o seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe  o Memorial Adonias Filho para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o seu nome. Ele é o patrono da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

Depois que a esposa Rosita  morreu em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos  que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na casa-sede de sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira.

Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau  com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence  o mal. Ultrapassa a morte  pelas mãos do amor  vivido entre Adonias e Rosita.


*Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta e cronista. Organizou e prefaciou a coletânea  Histórias Dispersas de Adonias Filho.  



terça-feira, 14 de abril de 2015

SARAU NA ACADEMIA DE LETRAS REUNIU POETAS, ESCRITORES E AMANTES DA LITERATURA


Sob a organização do confrade Gerson dos Anjos, com apoio dos confrades Pawlo Cidade e Geraldo Lavigne de Lemos, o primeiro sarau da Academia deste ano contou com a participação de vários poetas e escritores, como Luh Oliveira, José Maria, Ângela, Mari, o próprio Geraldo e Pawlo Cidade. Além de estudantes da escola estadual Paulo Américo, conduzidos pela professora Naiara Rocha.

Foi uma noite de muita poesia e depoimentos que passaram por declamações de Fernando Pessoa, Olavo Bilac, Renato Russo, Valdelice Pinheiro e muitos outros. Sem falar dos poemas dos autores regionais e locais.

O próximo sarau será no dia 11 de maio, a partir das 18h30.

sábado, 4 de abril de 2015

CRÔNICA


Queima do Judas

     Cyro de Mattos
        
  
O sábado era o dia em que mais gostava na Semana Santa. Amanhecia alegre porque Jesus Cristo ressuscitava nesse dia. Já podia cantar marchinhas no banheiro lá em casa quando fosse escovar os dentes e tomar banho. Já podia  beber leite no café da manhã e comer carne de gado, porco, carneiro ou galinha na refeição do almoço. Podia jogar bola no campinho  da beira-rio, pescar, nadar e mergulhar no rio Cachoeira. Se quisesse, podia ir assistir ao último episódio do seriado de Flash Gordon na matinê do Cine Itabuna.
A cidade voltava a ter sua vida normal, os comerciantes abriam as portas de suas lojas, as pessoas caminhavam  na rua, ora apressadas, ora tranqüilas. A feira atrás da estação do trem voltava a fazer sua festa, com vozes que não paravam de falar, as pessoas comprando tudo que podia se imaginar. O padre Nestor celebrava a missa das sete com entusiasmo na igreja de Santo Antônio cheia de fiéis. Depois que dava a bênção final, bradava que Cristo estava vivo, era o verdadeiro e único  rei dos cristãos, reinou e sempre haveria de reinar, ressuscitava para o bem da vida,  aleluia!
A queima do Judas acontecia nos bairros populares. Para minha alegria e surpresa, dessa vez  o Judas  ia ser queimado lá na rua. Quem preparou o boneco de palha, cheio de bombas na cabeça, tronco e membros, foi seu Filó, o dono da casa que vendia ferro e alumínio na rua do comércio.  À noite, por volta das 19 horas, já havia muita gente diante  do Judas pendurado no poste.
Seu Filó começou a ler o testamento do Judas por volta das 20 horas.

A cabeça vai pra seu Ribeiro,
A dele nunca prestou mesmo,
A do burro vale mais dinheiro.
As mãos espertas e macias
Dou pro açougueiro Berilo
Roubar melhor no quilo,
Cada nádega  é pra seu Augusto
Comer gostoso e soltar arroto,
As pernas finas e compridas
Deixo pro João Monteiro
Andar pra frente e ligeiro,
O chapéu grande de palha
É pro prefeito usar sem as galhas,
A calça velha, a camisa rasgada,
O paletó com  a gravata preta
Vão vestir o Zeca Hemetério
Quando viajar pro cemitério,
Os sapatos furados sem cadarço
Dou pra Luís Bernardo calçar
Quando tiver são ou bêbado,
É da meninada minha barriga
Cheia de doces e lombriga,
O charutão é de seu Tonico,
Bom proveito quando for ao circo,
O dinheiro vai pro seu Aleixo
Gastar no jogo do bicho,
O par de meias  com chulé
É pro padre Nestor fazer rapé,
O que precisa Maria Padeira
É um bocado de pele grossa
Pra ela fazer uma peneira,
Já uma parte da peitaça
É pra Dona Maria Graça,
Se ainda sobrar algum osso
É pra dona Joanísia botar
Na sopa de seu Lindolfo.


Começava  a ser queimado pelos pés, aí o que se ouvia eram os estouros de cada bomba arrancando os pedaços do traidor de Jesus Cristo. Eram lançados para todos os lados. Os estouros das bombas misturavam-se com gaiatices, sorrisos,  gritaria de gente grande e pequena.
Alguns dos moradores da rua achavam graça quando tomavam conhecimento de que tinham figurado como herdeiros no testamento do Judas. Outros ficavam aborrecidos, evitando se encontrar com seu Filó na rua, durante algumas semanas. Seu Ribeiro, o agente dos correios,  exigiu que ele lhe pedisse desculpa, se ainda quisesse tê-lo como amigo e bom vizinho. O prefeito Nazário pensou até em processar seu Filó, velho companheiro de partido. Achava que sua fiel esposa Maria Santinha não merecia ser ofendida por tão  grande mentira, mesmo que se tratasse de uma brincadeira inventada por seu Filó no testamento de Judas. Não levou a idéia adiante porque as eleições municipais iam ocorrer naquele ano. Queria ser reeleito como prefeito. E ele bem sabia  que seu Filó era o seu melhor cabo eleitoral na cidade.   (Do livro Roda da Infância, novela, Editora Dimensão, BH)





quinta-feira, 2 de abril de 2015

ACADEMIA REABRIU OS TRABALHOS COM POESIA DE CASTRO ALVES NA PRAÇA QUE LEVA SEU NOME


Acadêmicos presentes: Pawlo Cidade, Josevandro, Neuza, André Rosa, Geraldo Lavigne e Gerson dos Anjos

Todo início de abertura dos trabalhos de cada ano, (14 de março) depositar flores no busto do poeta Castro Alves e recitar seus versos, é mais que uma obrigação, é uma celebração ao grande poeta dos escravos. Castro Alves nasceu no dia 14 de março. Data em que comemoramos o Dia Nacional da Poesia. Por coincidência ou não, quando foi fundada no mesmo dia em 1959, a Academia de Letras de Ilhéus já tinha pronto o seu lema: Patriae Litteras Colendo Serviam – Servir à Pátria cultuando as letras.

Encontro de poetas, José Delmo e o busto de Castro Alves

As comemorações iniciaram às 17h30, na Praça Castro Alves, bem em frente à Biblioteca Pública Adonias Filho, na Avenida Soares Lopes. O poeta e ator José Delmo recitou poemas de Castro Alves e de sua autoria. Depois foi a vez de estudantes do Colégio Ideal também prestar homenagem ao poeta. Em seguida, os confrades se reuniram na Academia de Letras de Ilhéus para a posse do segundo mandato do presidente Josevandro Nascimento e sua diretoria. Em seguida, antes mesmo da emocionante palestra da Dra. Olívia Barradas, o poeta José Delmo recitou um trecho do livro “As Velhas”, do autor centenário Adonias Filho.

A palestrante Olívia Barradas (FOTO) optou por falar sobre o escritor Adonias Filho revelando curiosidades sobre sua vida privada e de como os dois se conheceram. Falou de suas amizades e de como ele foi considerado um arquiteto e engenheiro da narrativa, sobretudo no livro que destacou: “Luanda, Beira, Bahia.” Salientou que “o historiador tem compromisso com o fato histórico, mas, o romancista tem compromisso com o verossímil.”


Diversas autoridades civis e militares estiveram presentes. Por fim, o presidente fez um breve relato das atividades de sua diretoria no biênio 2013-2015 reafirmando que ainda tem muito o que fazer pelas letras em Ilhéus. Lembrou o saudoso Barão de Popof

OS SARAUS DA ACADEMIA DE LETRAS ESTÃO DE VOLTA


NOITE DA SAUDADE EM HOMENAGEM AO ESCRITOR HÉLIO PÓLVORA SERÁ DIA 14 DE MAIO



A noite da saudade, em homenagem ao escritor Hélio Pólvora, ocupante da cadeira nº 24, será realizada no dia 14 de maio, com a saudação feita pelo acadêmico Aleilton Fonseca, da Academia de Letras da Bahia, às 18 horas.

Hélio Pólvora era casado com Maria Pólvora Silva de Almeida. Ele deixa três filhos, Hélio e Raquel, frutos da união com Maria Pólvora, e uma filha (Fernanda), de união anterior. Entre os livros publicados estão os romances Inúteis Luas Obscenas (Casarão do Verbo, 2010) e Don Solidon (Casarão do Verbo, 2011), além dos livros Memorial de Outono (2005), Contos da Noite Fechada (2003) e “…de amor ainda se morre…” (2008).

O MESTRE DORIVAL DE FREITAS CONTINUA HOSPITALIZADO

O professor Dorival de Freitas, ocupante da cadeira nº 11 ainda continua sob cuidados médicos, em São Paulo. Estamos na torcida para que o idealizador do nosso Sarau Literário volte logo. Que Deus possa ouvir nossas preces e recuperar de vez o confrade.

POESIA EM HOMENAGEM AO SAUDOSO HÉLIO PÓLVORA POR CYRO DE MATTOS

Memória de Hélio Pólvora
                     Cyro de Mattos

No sempre do vento,
No sem agora do silêncio,
Embarcado em solidão.
Ah, o mar misterioso
Quer me parecer destino.
Entre viver e partir,
Nunca mais reverter
Minha casa de sonhos
Onde no quintal  convivi
Com auroras e bichos.
E no alpendre divisei
Gente que inventei
Para oscilar nas vagas
Assustadas, estranhas.
Assim cheguei  neste mar
Que me torna secreto.
De estar nele para sempre
Como em alta onda vertido
Não sei se encalho ou sigo,
Embora certo do que fiz
E deixo com mergulhos
Fundos, profundos,
Para inaugurar sentidos. 

terça-feira, 31 de março de 2015

ELE PARTIU COM OS "GALOS DA AURORA". A ACADEMIA PERDE UM DOS MAIS ATIVOS ESCRITORES GRAPIÚNAS

Hélio Pólvora - 1928 - 2015

Na última madrugada de quinta-feira (26) perdemos o escritor, jornalista e crítico literário Hélio Pólvora (foto). Confrade desta Academia de Letras, um expoente da literatura nacional. Hélio Pólvora era natural de Itabuna, região sul da Bahia, lutava contra um câncer de pulmão há mais de um ano. Segundo Aramis Costa, ele morreu em casa. O corpo do escritor foi cremado no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, em solenidade realizada às 17h30 de quinta-feira.

Hélio Pólvora era casado com Maria Pólvora Silva de Almeida. Ele deixa três filhos, Hélio e Raquel, frutos da união com Maria Pólvora, e uma filha (Fernanda), de união anterior. Entre os livros publicados estão os romances Inúteis Luas Obscenas (Casarão do Verbo, 2010) e Don Solidon (Casarão do Verbo, 2011), além dos livros Memorial de Outono (2005), Contos da Noite Fechada (2003) e “…de amor ainda se morre…” (2008).

“Ele morreu escrevendo. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Deixa um legado literário brasileiro importantíssimo. Nós perdemos uma glória da literatura nacional. Uma grande figura humana. Levou a vida toda trabalhando pela literatura e pela cultura. Um homem de inteligência e cultura fora do lugar. Foi uma perda irreparável para a cultura brasileira. Ele nunca parou de escrever”, disse Aramis Ribeiro Costa.

Para o poeta e integrante da Academia de Letras da Bahia, Luís Antônio Cajazeira Ramos, Hélio Pólvora é um dos contistas mais importantes da atualidade. “A Bahia perde a maior expressão das letras da atualidade. Sem dúvida, o maior contista, além de ser destacado como crítico, cronista, jornalista, editor e com uma longa militância na imprensa nacional. É o maior contista brasileiro da atualidade”, diz Cajazeira Ramos.

Biografia

Hélio Pólvora de Almeida nasceu em 1928, em Itabuna, na Bahia. Em 1953, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morou por 30 anos. Nesse período, o escritor iniciou a carreira literária e atividade jornalística, que prosseguiram, depois de 1984, na Bahia (nas cidades de Itabuna, Ilhéus e Salvador).

A estreia literária ocorreu com a publicação Os Galos da Aurora (1958, reeditado em 2002, com texto definitivo). Mais de 25 títulos de obras de ficção e crítica literária, além de participação em dezenas de antologias nacionais e estrangeiras, foram publicados. Hélio Pólvora também possui contos traduzidos em espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e holandês.

O escritor passou a morar em Salvador no ano de 1990. Eleito para a Cadeira 29 da Academia de Letras da Bahia, fez parte também da Academia de Letras do Brasil (sede em Brasília, DF), onde ocupa a cadeira 13, que tem como patrono Graciliano Ramos. Pertenceu ainda à Academia de Letras de Ilhéus, ocupando a cadeira 24. Ele atuava como cronista do jornal A Tarde há mais de oito anos e foi presidente da extinta Fundação Cultural de Ilhéus. O prefeito de Ilhéus também decretou luto oficial de três dias.

Fonte: G1 Bahia/Observatório de Imprensa


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ARTIGOS DA HISTÓRIA

Instituto Nossa Senhora da Piedade

MÉRE THAÍS
João Mangabeira


Dentre os benfeitores de Ilhéus, nenhum se pode comparar a "Mére Thaís". Nenhuma obra humana, nesse Município, à dela se pode equiparar. Essa construção grandiosa que se levanta ao alto da Colina, sem ela não ergueria para os céus sua majestade sagrada. Sem ela não teria Ilhéus essas gerações sucessivas de professoras e alunas, formadas pelo seu carinho, educada pelo seu caráter, instruídas pelas luzes do seu espírito e pelas virtudes do seu coraç ão. E tudo isso, Mére Thaís construiu e realizou, quase sozinha, rodeada a princípio apenas pelas poucas irmãs, e através de obstáculos de toda sorte, que ela teve de vencer numa luta constante, tenaz e silenciosa.

É que naquela freira se aninhava uma energia, se incubava uma vontade, se acendia uma inteligência, raramente encontradas nos mais altos padrões varonís. É que naquela freira baixa, gorda , de passos um tanto vacilantes, e que nos falava quase sempre sorrindo, havia uma fôrça intensa e insuspeitável, que a fé centuplicava e que, transparecia apenas na precisão com que a palavra lhe saía dos lábios e nos raios que fagulhavam, chispando nos seus olhos. E tais predicados, que tornavam atraente uma pessôa cujo físico, à primeira vista, não era simpático, tais predicados, unidos a uma inteligência culta e poderosa, davam, em conjunto, o atributo do comando, que parecia inerente a seu ser, comando a que todos obedeciam e que acabava por tudo dominar.

Eu a ví em plena luta, desde que em Ilhéus chegou para iniciar e levar a cabo sua obra formidável. Por mais estranho que isso hoje pareça, ela não teve, a princípio, dos ilheenses, o acolhimento e o auxílio que suas grandes virtudes mereciam e a grandeza que sua obra reclamava. Ao contrário, inexplicavelmente, a população em geral mantinha-se fria, retraída, quase hostil.

Graças a Deus nunca lhe faltei, em toda medida das minhas forças, com a minha ajuda, a minha estima e a minha admiração. Desde o primeiro instante e até o fim, como prefeito, deputado, como senador, como cidadão e como homem, tomei posição decidida ao lado dessa freira santa.Ela também não me faltou nunca, em todas as circunstâncias, com a sua amizade e o seu confôrto. Entre os papéis mais caros ao meu coração, guardo, a carta de protesto e solidariedade que me escreveu, quando preso e processado, como cúmplice de uma rebelião comunista, num processo monstruoso e condenado por uma sentença infame. Invulnerável na pureza de suas virtudes e invencível na fôrça divina de sua fé, a grande freira, quando muitos se acovardavam, lançava o seu protesto contra a injustiça, numa carta escrita num francês impecável e que é um primor na forma e no fundo. E isso ela o fazia, em meio a uma luta de todos os dias, no prosseguimento da sua grande obra, cujo têrmo ainda não findara.

É que se, em Ilhéus, o ambiente mudara e a frieza primitiva se transformara numa crescente de simpatia, não chegara contudo àquela estima e gratidão gerais, que nos últimos dias de sua vida a consagravam como, daquele Município, sua inigualada benfeitora.

Também não sei de ninguém que tivesse amado mais ternamente a Ilhéus.Parece-me que nem Tréguier, sua amada cidade natal da Bretanha, ocupava tão largo espaço no seu coração.

Na última vez que a ví aqui no Rio, no Convento das Ursulinas, Mére Thaís estava quase imobilizada na sua cadeira de rodas. Mas, nos lábios o mesmo sorriso, nas palavras a mesma energia, nos olhos a mesma luz. Sorriso, energia e luz dos dias longínquos de sua mocidade. Já estava no Rio há vários meses e então me dizia ao despedir-se: - "Quero voltar para minha casa". - Era Ilhéus a sua cidade; o Convento de Ilhéus, a sua casa. Aí quiz morrer e aí morreu. Fez-lhe Deus a vontade; Deus, a quem ela sempre serviu, com todas as forças de sua alma. E em meio às irmãs e às suas alunas, às quais chamava de "minhas filhas", expirou, cercada do carinho de uma população inteira, triste e consternada. Foi assim, que desapareceu aquela flor de pureza e de bondade. Foi assim que se apagou aquele foco luminoso. Foi assim que se extingiu aquela freira santa, cuja vida consistiu em "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como ela mesma". Repousa hoje no seio de Deus. E é com sincera comoção que atendo ao pedido que me fazem e lanço, nestas linhas descoradas, a pálida homenagem de minha admiração por uma das criaturas mais perfeitas que jamais passaram pela terra.

ILHÉUS: DIÁRIO DA TARDE ,1955


João Cavalcante Mangabeira(1880-1964) Chegou em Ilhéus em 1900. Advogado, Jornalista, Político. Prefeito de Ilhéus 1908-1909. Deputado Federal 1909-1912, 1915-1918, 1918-1021, 1921-1924, 1924-127, 1927-1930. 1935-1937, 1947-1951. Senador : 1930. Ministro da Justiça no Gabinete Hermes Lima. Ministro de Minas e Energia durante o Gabinete Parlamentarista de Francisco Brochado da Rocha. Fonte: Senado Federal . Secretaria de Documentação e Informação.Subsecretaria de Bibloteca. João Mangabeira. In: Dados biográficos dos senadores baianos 1826-1996. Brasília: Centro Gráfico, 1996,p.43-5.

ESTE ARTIGO FOI UMA CONTRIBUIÇÃO DA CONFREIRA ELIANE SABÓIA, OCUPANTE DA CADEIRA 12.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ESCRITOR BAIANO ESTÁ NO PRAVDA DE MOSCOU

Depois de ser publicado em vários blogs importantes brasileiros, como Boqnews.com e Campograndenews, o  artigo “Os Ventos gemedores: Saga  do Brasil Arcaico”, do escritor Adelto Gonçalves, Doutor em Letras pela USP,  sobre o romance “Os Ventos Gemedores”, de  Cyro de Mattos, foi divulgado  no Pravda de Moscou, na edição em português,  (Port.pravda.ru).

De ritmo ágil, com uma narrativa labiríntica, o romance  “Os Ventos Gemedores” conta a história das dominações de Vulcano Brás, dono de muitas terras no território do Japará, um condado imaginado pelo autor, e a busca da vida livre e justa, representada pelo vaqueiro Genaro. Sobressaem ainda  no conflito, que acontece em ambiente bárbaro, forjado pela  terra hostil,  personagens como Almirinha, Amadeu, Abelardo Pança-Farta, Edivirgem, os irmãos Olindo e Olívio.

O professor e Doutor em Letras pela USP, Adelto Gonçalves, debruça-se sobre o romance do autor baiano e empreende uma análise  histórico-social, concluindo que “o final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.”

Abaixo transcrevemos o artigo “Os Ventos Gemedores:  Saga do Brasil Arcaico”, de Adelto Gonçalves, publicado no Pravda  de Moscou:


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

MARIA LUIZ HEINE COM NOVOS PROJETOS


A professora, historiadora e pesquisadora Maria Luiza Heine mudou-se para capital para desenvolver novos projetos. Ainda este ano, deverá passar a residir em Sergipe. A incansável mestra tem alcançado vôos bem altos. Que as portas continuem se abrindo para a confreira que ocupa a cadeira nº 20.

PROFESSOR DORIVAL DE FREITAS ENCONTRA-SE HOSPITALIZADO


Fomos informados que nosso confrade, Dorival de Freitas, (foto) ocupante da cadeira nº 11, encontra-se hospitalizado. Esperamos que o mestre se recupere logo e volte a coordenar os sarus literários da Academia de Letras que devem retornar em abril.