quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ARTIGO



AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL: PRÉ-MODERNISMO E MODERNISMO

Por Cyro de Mattos




Em 1902, o livro Os sertões, de Euclides da Cunha, 
surge como o nosso grito de liberdade intelectual.



A arte no Brasil originou-se das transplantações de concepções europeias que se foram desenvolvendo entre os séculos XVI e XVII. Em observação lúcida, afirma Alfredo Bosi: 

"Se por Modernismo entende-se algo mais que um conjunto de experiências de linguagem; se a literatura que se escreveu sob o seu signo representou também uma crítica global às estruturas mentais das velhas gerações e um esforço de penetrar mais fundo na realidade brasileira, então houve, no primeiro vintênio exemplos probantes de inconformismo cultural". (História Concisa da Literatura Brasileira, Cultrix, página 375)

No final do século dezenove e início do vinte, o Parnasianismo e o Simbolismo eram as estéticas exercitadas no Brasil literário para expressar a vida com seus sentimentos de natureza diversa. No entanto mostravam-se empalidecidas no contexto sincrético de final do século dezenove e começo do vinte para questionar a vida com sua problemática existencial do indivíduo, desprovidas de vocação e ideias para refletir uma afirmação de identidade nacional quanto aos problemas da realidade brasileira. O espírito entre os intelectuais que cultivavam as duas estéticas era de estagnação reinante em face do contexto da época. Nossos escritores eram verdadeiros exilados europeus. Vivia-se com o sonho de Paris, o pensamento na Europa, nenhum era chamado verdadeiramente de culto se não falasse em Ajax, Heitor e no cerco de Troia. 

Vivia-se falando de nossas coisas como astros distraídos. Discutiam-se problemas políticos e literários sem um ideal superior de nacionalidade, que a todos congregue e irmane. Desdenhava-se o que era pátrio e nosso. A literatura para alguns era fazer a arte pela arte, para outros não passava de puro diletantismo, identificava-se como o sorriso da sociedade. Coelho Neto, símbolo do poder verbal na época, expressava-se com artifícios, adorno e sonoridade das palavras no lugar da ideia como aferição substantivada de nossas realidades. 

Apesar de a vida ser falseada, em clima alimentado pelo espírito da “belle époque”, quando era necessário ver o Brasil com os seus problemas reais, o incremento de nossa realidade no magma nacional assinalava alguns escritores que já se preocupavam com nossas coisas e gentes. Eram uns inconformados. Percebiam até certo ponto que nossa civilização diferente era formada por elementos estabelecidos aqui nos trópicos. Lima Barreto, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha apareciam para interromper a opereta repetitiva que incorporava a vida nossa no caldo do ócio e do inútil. 

No ambiente cultural postiço acrescido de alexandrinos exatos, com cesura e tudo, irrompia a estética da sinceridade formulada por Lima Barreto, nosso iniciador do romance social. O criador de Policarpo Quaresma queria ter o direito de ser ouvido aos descuidados por meio de uma literatura atuante, imbricada em nossa realidade, sem ser contemplativa, mas de motivação autóctone. Rebelando-se contra a postura de nossos intelectuais marcada pela futilidade das tertúlias e saraus, desejava uma literatura que falasse de nossas verdades, não aquela outra a encontrar belezas em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava havia se esfumado com a morte dos que a adotavam. 

O processo de integração da inteligência e cultura em nossa realidade encontra na figura de Monteiro Lobato outro escritor tomado de consciência dos nossos problemas, contrário à mentalidade vigente que extraía dos modelos europeus ideias, valores e costumes para incorporá-los ao nosso contexto social e político. Nosso sistema de pensar a vida nos moldes europeus, desvalorizando as poucas coisas boas que nos restavam, propiciava o momento oportuno para Monteiro Lobato lançar a figura do Jeca Tatu, caboclo dominado por uma tristeza crônica. 

Em 1902, o livro Os sertões, de Euclides da Cunha, surge como o nosso grito de liberdade intelectual. A obra mostra o retrato de um Brasil excluído, injustiçado nas camadas pobres, expondo sua miséria, seu dia sem esperança. Pela primeira vez era mostrado ao Brasil das tertúlias e saraus na metrópole um Brasil do agreste, messiânico, sofrido. Entendido como forte ameaça ao sistema organizado, esse Brasil maltrapilho vai ser massacrado sem piedade, com sua gente faminta, pelo sistema organizado.

O conto brasileiro nessa época revela-se como testemunho de nossas realidades geográficas, apresentando os seus viventes típicos e linguagens regionais. Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Hugo de Carvalho Ramos e J. Simões Lopes Neto aproveitam nossa paisagem como conteúdo do que se relata e aproxima os personagens da natureza. 

A Musa Perfeita de Bilac e a Musa Mística de Alphonsus de Guimarães perdiam suas cores, retirando-se do cenário em final do espetáculo. São as inovações formais trazidas da vanguarda europeia que exercem agora as atrações. Contribuem para a formação do espírito modernista, forjando um clima que iria motivar em torno de uma nova expressão artistas como Anita Malfati, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Pichia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira.

A afirmação de novos ideais estéticos não acontecia por acaso. Como predecessor importante da Semana de 22, houve a Exposição de Pintura Moderna – Anita Malfatti, que ocorreu em 1917, também em São Paulo. Cinquenta e três obras da pintora foram apresentadas ao lado de obras de artistas internacionais ligados às vanguardas europeias. As telas impressionaram nomes que liderariam, depois, a Semana de 22, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Di Cavalcanti. Antes de acontecer o conflito de 22, no Teatro Municipal de São Paulo, Oswald de Andrade conhecera em Paris o Manifesto Futurista de Marinetti. Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Manuel Bandeira travaram conhecimento com as novas ideias das vanguardas europeias. 

O século vinte sob novos signos daria condições absolutamente inéditas ao mundo. Provocaria transformações radicais na Europa com a revolução industrial. O mundo seria envolvido por duas guerras mundiais, que trariam efeitos nefastos à humanidade. Uma nova época social, política e econômica surgiria apoiada nos princípios liberais do capitalismo. 

Uma revolução tecnológica aperfeiçoava as máquinas de combustão, a utilização da eletricidade nas indústrias fomentava o progresso. Em Portugal, Fernando Pessoa, pela voz incandescida e mente turbulenta de Álvaro de Campos, cantaria em “Ode Triunfal” a “nova revelação metálica e dinâmica de Deus.” Sob o signo da técnica, os meios de transportes avançavam, e o Brasil procurava beneficiar-se dos meios e recursos que a mecânica proporcionava ao bem-estar da vida. 

Ventos outros sopravam o progresso, a modernidade e a afirmação da nacionalidade. E uma nova época esperava também uma arte nova, que exprimisse a saga desses tempos e do futuro. O cenário estava pronto para que o espetáculo da Semana Moderna de 22 fosse apresentado com seu caráter polêmico e provocativo. E uma nova época esperava também que uma nova arte exprimisse a saga desses tempos e do futuro com a atualização intelectual da consciência nacional. O Brasil, que se transformava e se modernizava, precisava de um novo olhar artístico, sociocultural e filosófico que propusesse uma arte nacional, original e atualizada, trazendo consigo um pensamento a respeito dos problemas brasileiros e da variedade cultural que se estendia por nosso vasto território.

O descobrimento de um Brasil novo, como afirmação de modernidade e compromissado com a nacionalidade, aprofundando-se no processo nativista que buscasse incorporar nossas coisas e gentes à inteligência brasileira, iria ser feito pelos intelectuais da Semana Moderna de 22, em São Paulo, novo polo econômico industrial. Ocorreria a Semana de 22 capitaneada por Mário de Andrade, ficando marcado o evento como o maior escândalo que um movimento artístico poderia causar entre nós, reunindo declamações de poema, palestra, música, exposições de escultura, pintura, arquitetura, manifestações do que havia de atual nas vanguardas europeias.

Mesmo sem um ideário estético, linhas de pensamento e de conhecimento filosófico que aprofundem as exigências da afirmação e atualização de um país periférico, a Semana de Arte Moderna reuniu artistas das mais diversas áreas no Theatro Municipal de São Paulo, ao longo dos dias 13 e 18 de fevereiro de 1922. Teve como objetivo problematizar e participar de nossa realidade social e cultural, registrando uma experiência artística que propôs uma arte nacional original e atualizada, trazendo consigo um pensamento a respeito dos problemas brasileiros e da variedade cultural que se estendia por nosso vasto território.

A primeira fase do Modernismo, de 1922 a 1930, é concebida como de destruição ao academicismo e ao passado. Destaques: os romances Macunaíma, de Mário de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, os livros de poemas Ritmo Dissoluto, de Manuel Bandeira, Vamos Caçar papagaios, de Cassiano Ricardo, e os contos de Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio Alcântara Machado. A segunda, de 1930 a 1945, é marcada pelo Romance Nordestino de 30, representado por José Américo de Almeida, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. A terceira, de 1945 a 1960, contextualiza-se pela geração de poetas menos radicais quanto à oposição ao passado; recorre-se ao soneto, o discurso emerge do texto sem o uso contundente das liberdades formais. Na ficção, dá-se a espiritualização do regional, despreza-se o documental, ausculta-se a alma do herói em crise, que também narra a história no fluxo e refluxo da vida. Na fase contemporânea, denominada de pós-modernista, destaca-se a reinvenção da linguagem como elemento estruturante da narrativa para expor o imaginário coletivo e individual, a auscultação da alma do herói em crise, que se expõe através do que pensa, também conta a história no fluxo e refluxo da vida. 


Referências


ARINOS, Afonso. Pelo sertão, contos, Edições de Ouro, Rio de Janeiro, 1967.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma, romance, Editora Brasiliense, 1956.

BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro, volume I, Edição Saraiva, São Paulo, 1958. 

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900, Ministério de Educação e Cultura, Rio de Janeiro (sem data). 

BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental, volume II, Editora O Globo, 1982. 

CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1964.

CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato, Editora Brasiliense, dois volumes, São Paulo, 1962. 

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil, volume II, Editorial Sul Americana, Rio de Janeiro, 1955. 

CUNHA, Euclides da. Os sertões, Editora Livraria Francisco Alves, edição 22, Rio de Janeiro, sem data. 

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo, Livraria Conquista Editora, Rio de Janeiro, sem data. 

MASSAUD Moisés e PAES José Paulo, Pequeno dicionário de literatura brasileira, Editora Cultrix, São Paulo, 1980. 

MASSAUD, Moisés. Dicionário de termos literários, Editora Cultrix, São Paulo, 1982. 

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. História da literatura brasileira – prosa de ficção, Livraria José Olympio, Rio de Janeiro, 1957. 

NETO, João Simões Lopes. Contos gauchescos e lendas do sul, Editora Globo, Porto Alegre, 1965. 

PESSOA, Fernando. “Ode Triunfal”, in Obra poética, Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1960. 

PORTELLA, Eduardo. Literatura e realidade nacional, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1971. 

RAMOS, Hugo de Carvalho. Tropas e boiadas, Livraria José Olympio. 

SILVEIRA, Valdomiro. Mixuangos, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1937. SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1960.

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