domingo, 27 de agosto de 2023

FRANCOLINO NETO SERÁ HOMENAGEADO PELA ALI DURANTE COMEMORAÇÃO DE SEU CENTENÁRIO DE NASCIMENTO


Francolino Neto, à esquerda, abraçado por Adonias Filho


O dr. Francolino Gonçalves de Queiroz Neto, nasceu em Pirangi, hoje Município de Itajuípe, no dia 10/09/1923. Foi Presidente da Câmara Municipal e Prefeito da Cidade. Professor em diversos Colégios de Ilhéus, especialista em Direito Penal, chegando a ser membro da Associação Internacional de Direito Penal, em Paris.

Juntamente com o professor Soane Nazaré de Andrade, foi um dos fundadores da Faculdade de Direito de Ilhéus, embrião da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo anterior da Academia de Letras de Ilhéus, foi ocupante da cadeira número 2, tendo por patrono Afrânio Peixoto e o próprio Francolino Neto como fundador. A cadeira também foi ocupada após a passagem do mestre Francolino Neto por Cláudio Silveira e hoje é ocupada pelo professor Sebastião Maciel Costa.

Faleceu no dia 23/02/2006, deixando uma lacuna na comunidade de Ilhéus, onde teve participação brilhante nos diversos cargos que ocupou. 

A Academia de Letras de Ilhéus lhe prestará uma homenagem, por ocasião do seu centenário de nascimento, no próximo dia 9 de setembro, sábado, às 19h, tendo como orador o confrade acadêmico Josevandro Nascimento.

SERVIÇO

O QUÊ?  
Sessão solene de comemoração do centenário de 
nascimento de Francolino Neto

QUANDO?
Dia 9 de setembro de 2023, sábado.

QUE HORAS?
19h.

ONDE?
Academia de Letras de Ilhéus

sábado, 26 de agosto de 2023

CONFRADE PAWLO CIDADE LANÇA O EBOOK "A ÚLTIMA FLOR JUMA"





Em meados de 1960, seringueiros, caucheiros, madeireiros e pescadores em Canutama, Amazônia, às margens do rio Assuã, quase exterminaram o povo juma. Aruká Juma era um dos sobreviventes da sua etnia. O indígena morreu aos 86 anos, vítima de complicações da coronavírus, no dia 2 de fevereiro de 2021. Foi a partir deste acontecimento que Pawlo Cidade (55), autor ilheense, membro da Academia de Letras de Ilhéus, ficcionou “A última flor juma”. A história é dedicada a Aruká Juma e todos os povos originários.

“A última flor juma” narra a saga de um pai e três filhas vivendo a beleza e as agruras da vida na Amazônia. Aruká Juma, remanescente da etnia Juma, e suas meninas Estrela D’água, Filha Branca e Menina do Rio lidam com um mundo em contradição. De um lado, a exuberância da floresta, a harmonia da natureza e a magia das histórias. Do outro, a violência e a opressão de contrabandistas, seringueiros, grileiros e madeireiros que se apossam da terra e do trabalho de indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores. A última flor juma é uma história de amadurecimento, uma crítica social contemporânea e uma ode às tradições populares da região amazônica.

Pawlo Cidade (55),membro da cadeira nº 13 e atual presidente da ALI, é também pedagogo, dramaturgo e gestor cultural. Autor, dentre outros, de “O colecionador de lembranças” (TPI Editora), “O tesouro perdido das terras do sem-fim” (A5/Via Litterarum Editora) e “Rio das Almas (Chiado Books). “A última flor juma” é também um manifesto contra todos os que querem sufocar, matar as cantigas, a história e a voz dos povos originários”, afirma o autor.

O livro, exclusivamente em e-book, está disponível à venda na Amazon desde o dia 26 de agosto, ao preço de R$ 24,99. Para os assinantes da kindle unlimeted o acesso é gratuito. Não é necessário ter um kindle para baixar o livro. Você pode lê-lo através do celular, tablet ou notebook. Basta baixar o aplicativo Amazon Kindle gratuitamente no Play Store. “A última flor juma” concorre ao Prêmio Kindle de Literatura. 

Para acessar o link do livro basta CLICAR AQUI ou ir direto no site da Amazon e digitar o nome do livro.



sexta-feira, 4 de agosto de 2023

ARTIGO



Sosígenes Costa, ao centro. 
Na esquerda, Jorge Amado, e à direita, Florisvaldo Mattos.



O Triunfo de Sosígenes Costa

Por Carlos Roberto Santos Araújo*



Se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?, perguntava-se Machado de Assis, em uma de suas crônicas escritas no final do séc. XIX. Parece que o bruxo de Cosme Velho não apreciava os tons dourados. Naqueles tempos, de conservadorismo puritano, o bom gosto pressupunha sobriedade e discrição. Repelia-se a cor solar, espalhafatosa. Em razão disso, o criador do Brás Cubas optava pelas cores escuras e cinzentas, que ele, por intermédio do seu personagem, chamava de “tinta da melancolia”.

Isto demonstra como as cores sempre foram temas prediletos dos poetas. Rimbaud escreveu um soneto célebre em que atribuía a cada vogal uma cor. Mallarmé citou o azul, mais de cinquentas vezes, em sua obra poética. Cruz e Souza endeusou a cor branca. Garcia Lorca celebrou o “verde que te quiero verde”. E o maior deles, Camões, falou de “uns olhos verdes”, tão verdes como as esmeraldas que Paes Leme nunca achou numa Sabarabuçu de meras turmalinas.

Como tudo tem a sua vez, chegou, um dia, a hora do amarelo. E este, como um Luís XIV redivivo, reinou, absoluto, dominou a pintura e a poesia, para não falar na Indústria da Moda, de tal forma que hoje ele se acha em todas os lugares, envolvendo, voluptuoso, o corpo das elegantes.

No Brasil tropical, ensolarado e sem fronteira, o amarelo, também, teria a sua vez. O amarelo das flores, das aves, dos crepúsculos, do azeite de dendê da nossa culinária. A gradação dos tons, a refração da luz. O amarelo invadiu todos os domínios. E, na literatura, o fez através de poesia do baiano Sosígenes Costa. Este, poeta sensual, esmerou-se em uma poesia visual, olfativa, auditiva. Uma poesia que celebrava a plasticidade do ambiente e se voltava para as cores fortes e para a intensidade de luz. Não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. E sua cor predileta, seria, nada mais e nada menos, que o amarelo. Não teria, como Picasso, uma fase azul, outra, rosa. Não. Seria o puro amarelo. Sua poesia, que nada tinha de intelectiva nem de conceitual, era, ao contrário, feita de imagens, sobretudo de imagens coloridas, de cores quentes e sensuais, sugestivas de um forte erotismo disseminado na paisagem. Como em um Van Gogh tropical, em Sosígenes predomina um amarelo pródigo que, muitas vezes, se desdobra em gradações de “sépia, topázio, abóbora, berilo”, verso de um dos seus sonetos mais belos, “O triunfo do amarelo”. 

Tem razão Hélio Pólvora, quando vê em Sosígenes um poeta de expressão pré-modernista, que rejeitou inicialmente a escola moderna, à época chamada de futurista. Isto porque a melhor poesia de Sosígenes é aquela dos Sonetos Pavônicos, nos quais o poeta usa os procedimentos das escolas parnasiana e simbolista. Parnasiano pelo rigor do verso e da métrica, pela perfeição da forma, pelo uso da mitologia clássica e do próprio soneto como o gênero literário de sua preferência. Lembre-se que tal forma poética era simplesmente abominada nos primeiros anos do modernismo brasileiro. Simbolista foi também Sosígenes pela sua plasticidade, pelas sinestesias, pela musicalidade, pelos recursos de aliteração, pelo cromatismo intenso de suas imagens. Tudo isto vinha de Baudelaire, que abriu o caminho para a poesia moderna. Aliás, o autor das Flores do Mal, precursor do moderno, inicia estes procedimentos poéticos, influencia o simbolismo, lança mão de novos recursos, faz o intercâmbio dos sentidos. No soneto Correspondances, ele diz: ‘Comme de longs échos qui de loin se confondent / Dans une ténébreuse et profonde unité, /Vaste comme la nuit et comme la clarté, /Les parfums, les couleurs et les sons se répondent’

Este tipo de correspondência, mistura de cores, sons e perfumes, iria se disseminar, através do movimento simbolista, e, aqui na Bahia, seria largamente utilizada por Sosígenes, durante a gestação dos seus belos sonetos, sobretudo os “pavônicos”. Só depois, Sosígenes aderiu ao Modernismo, através de Iararana, poema mítico, escrito nos moldes do “Cobra Norato”, de Raul Bopp. A poesia brasileira vivia, àquela época, o dilema de ser nacionalista, de buscar raízes brasileiras e procurar sua identidade. “Tupi or not tupi, that is the question”, diziam os poetas dos grupos Antropofagia, do Verde-Amarelo, e Anta. Mario de Andrade, com sua trupe de paulistas, viaja ao Amazonas, em busca de lendas e mitos, à procura do Brasil. Escreve o Poema do Seringueiro e diz: “Este homem é brasileiro que nem eu”. Traz a lume Macunaíma e a Toada do Pai do Mato. Cassiano Ricardo apresenta o Martin Cererê e Oswald publica Pau Brasil. Redescobria-se o Brasil. Foi através destas escolas que Sosígenes participou do modernismo, e escreveu Iararana. Outra vertente que também firmou moda na época foi a valorização da cultura negra. Mario escreve os Poemas da Negra. Jorge de Lima, Raul Bopp e Ascenso Ferreira escrevem poemas com a mesma temática. Sosígenes seguiu também esta trilha e produziu uma série de poemas ‘negros’. Este tipo de poesia, entretanto, voltada para mitos indígenas e negros ficou para trás, precluso. Foi um rápido intermezzo nativista. A geração seguinte, com Drummond, Vinicius, Schmidt, Murilo, Cecília, seguiria outros caminhos, à procura de temas universais. Este desvio da poesia, ao qual Manuel Bandeira não aderiu, simplesmente morreu com o esvaziamento da ideologia das correntes nacionalistas do modernismo.

Acho, pois, que a grande força da poesia de Sosígenes se encontra em sua primeira fase, em que ele é o poeta de linguagem pré-modernista, o sonetista dos pavões, dos crepúsculos, da flora sul baiana. O poeta cromático, sobretudo da cor amarela. Aí, sim, Sosígenes foi supremo, sua poesia se tornou uma fonte de encantamento, e seduziu leitores, produziu êxtase. Vivendo à beira-mar, nos Trópicos, Sosígenes haveria de sofrer a influencia da intensa luz solar, da luminosidade da Região Cacaueira da Bahia, onde o sol, em refração com o verde da floresta, transforma-se no que Mario de Andrade chamava de “pintor de dúzias”. Dissemos acima que, não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. Aliás, pensando melhor, ele foi pintor. Este é o Sosígenes que ficará: o cantor das cores, dos pássaros, dos perfumes, dos vinhos, dos crepúsculos, dos colibris, e dos pavões, os “pavões de caudas verdes e amarelas”, símbolos da beleza suprema. Com Sosígenes, aprendemos a beleza do amarelo. Ainda bem que nem todos os gostos são iguais.

* Membro efetivo da cadeira nº 26.